quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

HODGSON, Peter C. God's Wisdom: Toward a Theology of Education. Louisville, KY: Westminstr John Knox Press, 1999, 168 páginas.

HODGSON, Peter C. God's Wisdom: Toward a Theology of Education. Louisville, KY: Westminstr John Knox Press, 1999, 168 páginas.


Nossa proposta aqui é resenhar a presente obra do professor emérito de Teologia da Vanderbilt University Divinity School, em Nashville, Tenesse. Peter C. Hodgson é graduado pelo Princeton e Yale e obteve experiência acadêmica no Trinity (Texas, 1960-65) e desde 1965 tem sido professor na Vanderbilt. Sua especialidade é em Teologia Sistemática com forte ênfase histórica e, devido a essa experiência, aventurou-se em publicar um assunto na área da teologia prática. Seus colegas costumam dizer que este livro "não é uma teologia da educação religiosa, nem uma teologia da educação teológica, mas, sim, uma teologia da educação na medida em que ela também é uma pedagogia transformadora" (Kelsey, contra-capa). O próprio Hodgson admite que foi desafiado a produzir um seminário sobre pedagogia para o programa de doutorado em religião, em cuja ocasião sentiu-se apto a refletir teologicamente sobre educação.

Partindo de um título bastante provocativo God's wisdom é um livro que tratará acerca da teologia da educação sob os olhos de um sistemático. A construção de sua pesquisa se dá a partir do método metáforico, isto é, ele utiliza as imagens de mestre e sabedoria (sofia e paideia) para relacionar a educação e os respectivos desenvolvimentos que ela teve na elaboração de novas teorias. Há um capítulo específico sobre o que ele chama de Pedagogia Transformadora, significando a análise das teorias modernas e pós-modernas da educação. A relevância dessa obra se dá em um contexto em que a educação teológica no Brasil se tornou formalmente aceita nos círculos acadêmicos a partir de 2000 e oxalá possa dialogar exemplarmente com os teóricos da Educação.

O livro está estruturado em cinco capítulos e o objetivo é refletir sobre a Educação a partir do tema da sabedoria de Deus. No primeiro capítulo, Hodgson faz a Introdução (p.1-9) sobre as dimensões que o ensino provoca em um ambiente. Para ele, ensinar é uma vocação religiosa, pois é necessário discernir a subjetividade da educação em um contexto religioso, pois "a religião em si é algo que ensina e gera um processo educacional" (p.2). É quando o objeto se torna o sujeito da pesquisa. Ele também adverte-nos sobre as dimensões religiosas do ensino, quais sejam: (a) a educação é essencialmente uma atividade religiosa, (b) a religião proporciona a compreensão transcendente de valores culturais (crença, conhecimento, liberdade etc), (c) a educação religiosa inculca-nos deveres e reverência, (d) a religião conscientiza o indivíduo acerca do ímpeto interior religioso, (e) a educação é um imitatio Dei absconditi sed non ignoti (uma imitação de Deus que está escondido, mas não desconhecido), (f) a religião possui o poder sagrado da transformação, (g) a religião tem a capacidade de resgatar/recriar os valores para a manutenção da vida, (h) a religião proporciona ao indivíduo o encontro de si, de sua identidade e o torna consciente de seu comissionamento e (i) a religião é responsável pela produção da crença comum (fé). Uma outra advertência que o autor nos faz é com respeito à maneira que o Senhor nos educa, ou seja, ele no conduz pelo seu Espírito (Pneuma), todavia Hodgson diz que é preciso observar como esse termo também está diluído em outros valores semânticos gregos e latinos. Um é a sophia (sabedoria) que consiste na oposição às tolices do mundo, proporcionando uma consciência acerca das naturezas carnal e espiritual. Outro termo é a paideia que consiste no estado de maturidade humana, na formaçao da personalidade. No mundo latino, educere e educare significam os resultados obtidos após um ensino. Sendo assim, a sabedoria não pode ser somente entendida como uma atividade humana, mas como um dom divino, o que sabe associar os fenômenos do ensino e da aprendizagem.

No capítulo segundo, Hodgson apresenta seis argumentos para afirmar Deus como Professor (p. 11-49), percorrendo o desenvolvimento clássico e moderno. O primeiro é construído bíblica e historicamente: (a) no período hebraico, a torah ganhou espaço educacional para o povo de Deus, (b) no período helênico, a paideia proporcionou a compreensão do que outrora havia sido revelado. Em ambos períodos, houve um preocupação de expor YHWH-THEOS como o Deus revelado. Surgiram, então, os primeiros comentários e interpretações dos sentidos literais e místicos da Torah, o Talmud. Seu objetivo foi essencialmente o de continuar o processo pedagógico de transformação integral, ou seja, enquanto a Torah propunha a inserção de uma atividade intelectual, a presença do Talmud iria efetuar as mudanças na pessoa. No contexto helênico, Sócrates propos um estudo dialético de aproximação da verdade. Hegel diz que para Sócrates, "o que é verdadeiro é algo que a consciência toma para si mesma em um ato primordial de edução, educando... daí, a educação torna-se, para ele, um dever religioso, um tipo de adoração, para a alma ou espírito, é o divino na humanidade... (p.16-17). Ele encontrou no phronesis uma forma de esboçar sua teoria, isto é, o conhecimento do bem. Em Platão, a paideia torna-se um sistema educacional circunscrito, isto é, um novo padrão de realidade e valores que substitui os antigos fundamentos da cultura religiosa (ou quiçá, uma nova religião). Enquanto Sócrates usava a dialética, Platão usou a retórica como meio de persuasão. Suas referências foram construídas a partir de eidos (ideia), eros (impulso), paradeigma (paradigma) e, finalmente, nomos (lei). Hodgson diz que embora Platão tenha tomado algumas referências de Sócrates, o mesmo conseguiu avançar no significado democrático de uma educação religiosa que o contexto grego impunha. Hogson interpreta a visão educacional de Platão para a paideia como sendo Deus o grande "professor".
O segundo argumento histórico é sobre os pais gregos: os alexandrinos (no Egito, Clemente e Orígenes) e os capadocianos (na antiga Anatolia, hoje Turquia, Gregório de Nazianzeno, Basil de Cesaréia e Gregório de Nissa) com ênfase em Cristo como "professor". Para Clemente de Alexandria, Cristo é o "divino educador que transcende qualquer outra paideia" (p. 22), e para Orígenes ele é a própria sophia de Deus (tanto o hálito como a vontade de Deus). Os teólogos capadocianos entenderam Cristo como paideia à luz da doutrina do Espírito Santo. Gregório de Nissa foi quem mais explicitou essa abordagem. Para ele, o Espírito Santo é quem tem o poder (a sinergia) de dar crescimento à personalidade, de formar e de transformar.
O terceiro argumento baseia-se na teologia de três latinos: (a) Santo Agostinho que compreendia essencialmente a formação do mundo cristão através da educação. Seu escrito Sobre o Professor discorre sobre sua própria experiência de como alguém aprende diretamente do professor. Para ele, Cristo é o grande Professor que aprendeu sobre a mente de Deus; (b) São Tomás de Aquino amplia o conceito agostiniano e diz que é o próprio Deus quem coloca na humanidade a consciência de aprender e de ser professor, pois "Deus é ativo no processo, não meramente como o professor interior, mas também através da agência de professores humanos que evocam e explicitam o portencial que está presente em cada ser humano - o portencial que é o próprio Deus" (p. 28); (c) e para São Boaventura há uma explicação mística da educaçao sobre o ser humano, pois cada um de nós transporta as atividades intelectuais para a mente divina.
O quarto argumento proposto por Hodgson refere-se à teologia reformada, cujos representantes serão João Calvino (século XVI) e Horace Bushnell (século XIX). O autor quer fazer um paralelo conquanto ambos servirão como modelos de que Deus é quem ensina. Nas Institutas, Calvino deixa transparecer que seu projeto educacional é tirado das Escrituras: (a) a natureza como professor, ou seja, ele crê que "o conhecimento de Deus foi naturalmente implantado nas mentes dos seres humanos" (p. 30), (b) as Escrituras como professor, isto é, a Palavra se torna a lei divina para o ensino ainda a ser realizado, (c) o Espírito Santo como professor, cujo ensino é pneumológico: é o Espírito quem dá vida à Palavra e (d) a Igreja como professor, ou seja, ela é a Escola de atuação do Espírito Santo. Hodgson esclarece que Calvino não expõe Cristo como professor porque acredita que a natureza, o Espírito, a Igreja e as Escrituras focalizam-no como conteúdo desse ensino. Já Horace Bushnell enxergou a paideia em Efésios 6:4 e escreveu Christian Nurture (Educação cristã) na qual ele expõe a idéia de que é Deus quem ensina. Ele considerou ainda dois argumentos a esse favor: (a) a humanidade é capaz de fazer o bem, e o processo de redenção é que o Espírito capacita homens e mulheres, e (b) há uma conexão orgânica (natural) da lei, que consiste no ensino transmitido de pai para filho sucessivamente. Hodgson faz uma análise bem dura sobre o pensamento de Bushnell no que diz respeito à pessoa do Espírito Santo.
O quinto argumento é estruturado sobre a contribuição de dois pensadores na época do Iluminismo. Gotthold Ephraim Lessing estabelece uma relação entre educação e revelação. Para ele, Deus é o responsável por revelar-se como instrutor e prover um roteiro (livro) educacional para o seu povo. E Johan Gottfried Herder diz que "o ser humano não é completo em si mesmo, não é uma entidade independente, mas, sim, que precisa aprender tudo, ser formado através de um processo contínuo e avançar através de combates graduais" (p. 40).
O sexto argumento traz mais dois pensadores dos séculos XVIII e XIX. O primeiro é Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), filósofo do espírito (Geist) e ontologista, que, ao escrever um ensaio, "explorou a possibilidade que ele e seus amigos rebeledes pudessem se tornar iluminados educadores da religião (Volkserzieher) e que pudessem criar um nova religião popular (Volksreligion)" (p. 43). Sua metodologia se baseia na Bildung, ou seja, numa educação formativa. Para Hegel, "educação é tanto um processo umano quanto divino" (p. 44). Houve, após alguns anos, a evolução do seu pensamento, quando ele considera educação "a arte de tornar éticos os seres humanos" (p. 44). E o segundo pensador é Sören Kierkegaard (1813-1855) que defende a idéia de um avanço que a humanidade faz em busca do conhecimento, uma vez que "essa humanidade está em um estado de ausência ulterior da verdade e pecado" (p. 46). Para que isso aconteça é necessário um mestre, o próprio Deus. Nesse aspecto Deus é professor na medida em que a humanidade o entenda nas pessoas do Filho e do Espírito.
Este capítulo é indicado essencialmente para os estudiosos da Educação em geral, e para os professores de educação cristã e teológica, em específico. A ênfase é sobre o a compreensão do conhecimento para a educação numa perspecitva de transformação.
O terceiro capítulo discorre, em cinco propostas metodológicas, o que Hodgson intitutlou de Pedagogia Transformadora: teorias modernas e pós-modernas (p. 51-86). A primeira proposta faz a relação entre educaçao e formação da vida. Deixando para traz os termos torah e paideia, agora o foco é em morphosis (formação) e metamorphosis (transformação). Hodgson descreve seis teóricos sobre esse tema. Primeiro, baseando em John Dewey, Hodgson transcreve duas definições que valem a pena considerar: (a) "educação é uma necessidade da vida" (p. 53), e (b) "educação representa os meios de continuidade social da vida" (p. 54). Então a vida se torna um objeto final da educação porque carrega em si a substância da cultura (cf. Tillich apud Hodgson, p. 54). Segundo, Hodgson se apóia no cientista político Charles W. Anderson que considera o objetivo da universidade conduzir o jovem para a vida de um povo, e que a religião favorece a dimensão educacional nesse processo de condução. Então, a educação pode ser entendida como: (a) um processo da formação da personalidade e (b) um crescimento ou desenvolvimento da vida em formação. Terceiro, o autor sintetiza a compreensão de Bernanrd Meland sobre a consciência criadora humana como um nível de movimento contínuo entre as estruturas físicas e de virtudes (espírito). Quarto, é a vez de Howard Gardner, o expositor das inteligências múltiplas, afirmar que  sua teoria se relaciona à vida em formação porque ela "se relaciona aos múltiplos aspectos da experiência da vida" (p. 58). Quinto, Gabriel Moran amplia o conceito das inteligências múltiplas, declarando que este é um "processo de vida com longa interação com os ambientes natural e cultural pelos quais os indivíduos crescem e são transformados" (p. 58). Sexto, trata-se de apenas um alerta feito por Edward Farley sobre o "aprendizado organizado", uma espécie de educação com o objetivo de "transmitir pelos meios de um processo sequencial de atividades didáticas disciplinadas tanto os insights como os depósitos do passado e métodos e modelos de pensamento e trabalho que capacitam a novos insights" (p.58). É esclarecedora a afirmação de Hodgson quando diz que "uma vez que a educacão chegou para dar sentido à formaçao da vida, o aprendizado organizado inevital ou necessariamente desaparece" (p. 58).
A segunda proposta afirma que a educação acontece ritmicamente, move-se através dos vários ciclos ou estágios. Em rápidas palavras, Hodgson resume os conceitos de Platão, Agostinho e Tomás de Aquino. Mas é em três outros teóricos que ele explica o ritmo da educaçao. O primeiro é Friedrich Hegel e sua teoria dialética, a partir da qual três consideração são pertinentes a favor da educação: (a) universalidade, (b) particularidade e (c) individualidade ou singularidade. Essas considerações referem-se aos estágios que dinamizam e dão sentido ao processo educacional na formação do indivíduo. O segundo é Alfred North Whitehead que, ampliando a teoria de Hegel, estabelece três estágios do rítmo da educação: (a) romance, que se refere ao estágio de apreensão, geralmente a educação primária, (b) precisão, quando a proficiência linguística é adquirida e se torna uma ferramenta científica, muito frequente na educação secundária, e (c) generalização, estágio da educação universitária, no qual se pressupõe a aquisiçao das idéias gerais e aplicação em situações concretas. É salutar a explicação que Hodgson faz sobre o que ele considera esse processo integralmente cíclico e ritmico como sendo a paideia, no sentido da formação da personalidade humana (p. 63). O terceiro téorico é Mary Elizabeth Mullino Moore que combina a filosofia de Whitehead e o método gestaltista para um ensino de abordagem integradora. Ela estabelece três momentos: (a) exposição do indivíduo aos elementos culturais; (b) o encorajamento dos indivíduos na busca pela unidade dos elementos culturais; (c) a capacidade de preservar a complexidade dos detalhes. Na verdade, é uma exemplificação de Whitehead, com nuances mais contempoâneas, vista em seu livro Teaching from the Heart: Theology and Educational Method (Ensinando do Coração: teologia e método educacional).
A terceira proposta é que a Pedagogia Transformadora precisa de um conhecimento construtivo e interativo. Passeando sobre o conteúdo da Toráh, da revelação de Deus, dos filósofos gregos Platão e Sócrates e da epistemologia sobre as culturas, é a partir do Iluminismo que Hodgson se concentra para dissertar sobre  o conhecimento de Deus numa perspectiva construtiva e interativa. Para ele, "o conhecimento é uma atividade social, algo que ocorre em uma comunidade de discurso" (p. 67), fazendo com que percebamos que a comunicação (discurso) se torna a chave da educação construtiva e interativa. Através do estudo feito com mulheres por Mary Field Belenky, percebeu-se o avanço numa perspectiva do "conhecimento construto", uma abordagem que permite-nos entender que "todo conhecimento é construído, e o conhecedor é uma parte íntima do conhecido" (p. 68), pois há: (a) uma relação de dependência na construção com a verdade e (b) "quando a verdade é vista como um processo de construção na qual o conhecedor participa, uma paixão pelo aprendizado é desenfreada" (p. 68). Já Bernard Meland traz um contrapontoa esse questão quando afirma que há "um tipo de pensamento que prevalece muito na educação hoje (analítica, descritiva e instrumental) e que capacita os estudantes a tomar coisas a parte, mas não re-contruí-la ou ver coisas em suas relações" (p.69). Esse tipo de abordagem levou a considerar outros níveis do pensamento (por volta de seis), sendo que o último se refere à (re)contrução do conhecimento, verdade, pensamento e ser.
A quarta proposta considera a educação como prática da liberdade, ou seja, o ser humano sai para conectar-se com o mundo, tanto em um processo histórico como em um ambiente natural e social. Baseando-se em uma literatura latino-americana e escolanovista, Hodgson tematiza esse assunto em três, quais sejam: (a) pedagogia engajada e prática da liberdade, auspiciada por Gloria Watkins (pseudonimo de bell hooks) e acrescenta a formação espiritual. Sua abordagem perpassa na teoria freiriana sobre a pedagogia libertária, causando impacto por ter uma visão feminista sobre os relacionamentos baseados no reconhecimento mútuo; (b) democracia radical e transformação social, a partir da qual cita novamente Paulo Freire, acompanhado de Martin Luther King Jr. (revolução dos valores). Vale a pena repensar alguns parágrafos que Hodgson escreveu, citando autores, e sobre o que ele pensa em "liberade" vinculado à democracia. Da mesma forma, entender criticamente a proposta de Dewey para uma sociedade democrática, mas que manipula a comunicação; (c) estudos culturais e discursos pos-coloniais compreendem as contribuições de Henry Giroux, Peter McLaren e bell hooks sobre a possibilidade de diálogo referente à educação recebida em contextos coloniais, salientando, contudo, o conflito entre as partes como ambiente educacional.
A quinta proposta expõe um ensino conectado e um aprendizado cooperativo nas interrelações Deus (verdade) e humanidade (conhecimento) com os termos professor e aluno. Hodgson resume as compreensões de vários autores, desde Sócrates até Bushnell, esclarecendo que todos estão conjuntamente participando de um processo redentivo através da prática da educação. Ao mesmo tempo que os conteúdos interagem em diversas áreas do conhecimento, professores e estudantes cooperam entre si para a transformação social.
A leitura desse capítulo precisa ser feita cuidadosamente porque em cada parágrafo é possível inferir sobre as práticas docentes em sala de aula e fora dela. É possível, sim, falar em sabedoria proveniente da ação transformadora que a educação promove. Buscar a liberdade torna-se, então, nosso imperativo educacional.