terça-feira, 26 de março de 2013

Aula 1: Descrição


Olá, galera!

Seja bem vindo(a) à nossa primeira aula sobre como escrever poesia. 

Há várias teorias para dar início à "arte de escrever com a alma ou sobre a alma". Poderia indicar uma bibliografia muito grande sobre isso, mas vou ater-me à minha experiência como professor de Letras e como um intrometido a ser poeta.
Como também sou um estudante da Educação, vou associar a teoria do pensamento crítico (critical thinking theory) com a teoria da literatura (especificamente à poesia). 



Então, vamos fazer um aquecimento. Observe a figura ao lado. Se eu pedisse para você "descrever" essa imagem, certamente as palavras "passos" ou "pegadas" estariam em sua composição. 

É claro que, dependendo o "estado de espírito" do leitor, certamente haveria outras inserções, tais como: "solidão", "distância", "desafios", etc. 

A partir desse exercício, já é possível afirmar o seguinte: 


Escrever poesia é ser capaz de observar uma cena, uma situação ou um acontecimento para, posteriormente, descrevê-lo em diferentes perspectivas.

Isso acontece porque uma mesma imagem (ou situação) precisa ser observada em várias direções. Algumas chegam até ser quase parecidas. Veja essas duas cenas: 



Fotografei essas imagens em um dos meus invernos em Deerfield, Illinois, nos EUA. As fotos serviram apenas para dar-me a noção de aproximação e distanciamento. Quanto mais perto, maior é a capacidade de descrição. E, obviamente, quanto mais distante, menor é a capacitação. 

Mas se você achar que a descrição de quem está perto (aproximação) pode ser inferior à descrição de quem está longe (distanciamento), vou dizer que você também está correto! E isso se deve ao fato do processo "mental" (racional) do leitor-escritor de abstração. 

Portanto, duas habilidades cognitivas são essenciais ao poeta: 

(a) observador: 


Ler é observar.

Observar é ser capaz de ver o todo de uma determinada cena ou acontecimento e indicar as porções mais  significativas (relevantes) dessa mesma cena ou acontecimento.

Na poesia, a observação deve ser um hábito do leitor e do escritor. É preciso, inclusive exercitar essa habilidade. Para fazer isso, indico os seguintes exercícios:

- Observar a natureza

Passear no parque (praça), no lago, enfim em algum lugar em que flora e fauna sejam as pinturas do ambiente, etc.  

- Observar a cidade

Passear pelo calcadão ou mesmo a praça, o shopping center, as avenidas, os bares, as igrejas, enfim lugares em que a dinâmica do "movimento" seja relevante, etc. 

- Observar você mesmo

Passear dentro de si é um exercício de auto-conhecimento muito importante para o poeta. Muitas vezes é até terapêutico. Reserve um tempo para ti, de quinze minutos e procure entender como você é, reage, se comporta, etc.

b) fazer abstração

Pensar, meditar e refletir é fazer abstração. 

Ou seja, ser capaz de extrair a essência de um determinado objeto, evento, situação etc. 

Na poesia, fazemos abstração para entender os julgamentos éticos, os princípios morais, a compreensão estética (beleza). Refere-se ao que comumente, chamamos de axiologia. 

Para a abstração, penso que os exercícios a seguir sejam os mais indicados para quem almeja entender a descrição dos sentimentos:

- Leitura com sensibilidade

Leia uma reportagem qualquer sobre corrupção no meio político (não vai ser difícil encontrar, rsrsr). A primeira leitura, obviamente fará com que você "julgue" as atitudes dos parlamentares, tais como: prisão, cadeia, cassação, etc. No entanto, atente para sua reflexão sobre valores éticos e morais: honestidade, sinceridade, justiça, hombridade, caráter, etc ausentes pelos parlamentares. 

Agora, medite sobre a "possibilidade" de transformação ou redenção, um tipo de conversão desses maus políticos. Certamente, você terá que, "mentalmente", associar outros valores: escola, leitura, cursos, família, etc. 

Em diferentes situações, costumamos fazer julgamentos imediatos. Isso é natural, refere-se ao processo de defesa, chamado tecnicamente de "bias". Mas pode ser tão forte que, fatalmente, irá se transformar em preconceito - o poeta tem, sim, que opinar, mas não ser preconceituoso - senão a análise de abstração não foi realizada. Sendo assim, a leitura sempre tem que ser sensível. 

- Leitura com prós e contras

Vamos meditar sobre um fato social: o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Não importa a sua opinião, em primeiro momento. Atente, então, para os prós (a favor) de uma sociedade cujas relações são entre pessoas do mesmo sexo. E, em seguida, pense sobre os contras. 

A leitura com prós e contras não se refere a determinar vantagens e desvantagens, mas precaver-se de e entender acerca dos "sentimentos" revelados em ser a favor de uma determinada causa ou contra.

Agora medite, por exemplo, sobre o desmatamento, as queimadas, células troncos, etc. 

- Leitura compreensível e misericordiosa 

Parece que estou "pregando", mas, fique tranquilo(a). Trata-se de um tipo de leitura de confronto de "realidades". Por exemplo: minha mãe é analfabeta e nunca teve condições de entender o porquê de várias situações que acometiam a nossa família. Lembro-me de que ela literalmente "brigou" com uma professora na escola por causa de minha irmã caçula. O fato era que minha irmã não tinha feito a lição de casa. Então, a professora colocou-a para fora da sala, e escreveu, em seguida, um bilhete para minha mãe. Esse bilhete provocou um sentimento de ira em minha mãe. Como ela não tinha condições de entender o porquê da disciplina, a professora disse que não iria "fazer minha mãe entender o que significa educar uma filha". Com essas palavras, inflamou-se mais ainda a ira da minha mãe e ela ameaçou de "bater" na professora. A polícia foi chamada e aí o "barraco" estava feito. No final, eu apareci na escola e delegacia, como estudante de magistério, e a situação pode ser contornada. 

Na poesia, a leitura não deve ser "exclusivamente" dos fatos, mas exaurir-se também na compreensão deles como sendo uma atitude de misericórdia (compaixão). É colocar-se ao lado dos menores, dos que têm obstáculos na compreensão das partes para entender o todo. O poeta sempre se faz partidário das minorias. 

Pense e reflita, agora, sobre o seguinte assunto: a educação de analfabetos adultos, em cuja cognição a abstração (conceitos totalmente abstratos) são quase impossíveis de serem assimilados. Só uma leitura misericordiosa é que dá luz à alfabetização deles. 

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Vamos voltar ao tema da poesia como capacidade de descrição. As próximas figuras vão resumir o que quero dizer sobre a arte de descrever. 


Nesta cena, há árvores, prédios e rua. A linha do horizonte projeta o plano de observação e, ao centro, o ponto de foco ou plano de fundo. 

Na verdade é dali, do PF, que surgirão todas as direções para a análise. Isso damos o nome de perspectiva. Fazer poesia é adotar uma direção e escrever sobre ela. 

Olha só agora como ficaria a possibilidade de ver a mesma imagem em perspectivas diferentes. 


O ponto focal (centro) é o de origem. Na poesia, podemos assumir direções e, a partir desse foco, iremos descrever (dar detalhes) dessa perspectiva. Isso é fazer poesia, ou seja, detalhar uma direção a partir de uma cena, ou situação ou acoantecimento .




Então, descrever é apontar alguns detalhes de sua observação. 

Vejamos o seguinte poema de minha autoria. Acesse aqui.

Nele, descrevo o papel do cupido como alguém que peca constantemente, ou seja, erra o alvo. A direção que tomei foi a de fazer a leitura com sensibilidade, a de ser flecha. 

ATIVIDADES 

Exercício 1: Observar do todo para as partes

Observe esse vídeo que tem um comercial muito interessante. Você terá que identificar o maior número possível de "construção de cenários" (espaços, ambientes). 





Exercício 2: Descrevar detalhes das partes

Escolha três ambientes (cômodos) de sua casa que você mais gosta. Faça uma descrição deles usando apenas adjetivos (qualidades). Veja o exemplo que eu estou dando do quarto: 

Meu quarto 


Bagunçado 
Desalinhado
Desarrumado
Inabitável 


Aconchegável
Confortável
Silencioso
Limpo




Habitável
Inspirador
Seguro
Sagrado





Exercício 3: Abstração



Leia a estória abaixo: "Problema na Clamba"


Naquele dia, depois de plomar, fui ver drão o Zé queria ou não ir comigo à clamba. Pensei melhor grulhar-lhe. Mas na hora de grulhar a ficha vi-o passando com a golipesta – então me dei conta que ele já tinha outro programa. Então resolvi ir  tode. Até chegar na clamba, tudo bem. Estacionei o zulpinho bem nacinho, pus a chave no bolso e desci correndo para aproveitar ao chinta aquele sol gostoso e o mar pli suplante.

Não parecia haver um glapo na clamba. Tirei os grispes, pus a bangoula. Estava pli quieto ali que até me saltipou. Mas esqueci logo as saltipações no prazer de nadar no tode, inclusive tirei a bangoula para ficar mais a vontade. Não sei quanto tempo fiquei nadando, siltanto, corristando, até estopando no mar.

Foi no tode depois, na hora de voltar á clamba, que vi que nem os grispes nem a bangoula estavam mais onde eu tinha deixado.

O que fazer?????


SCOTT,Michael. 1981. Working Papers n. 1. 
Projeto Nacional de Ensino de Inglês em Universidades Brasileiras.

Há, sim, vários recursos para serem explorados neste texto. Um deles é a sua capacidade de dar novos sentidos às palavras desconhecidas, tais como:

plomar = trabalhar
drão = amigo, colega
clamba = praia 
e assim por diante...

Mas depois disso, há os exercícios de abstração que quero enfatizar. Para dar início, veja a primeira parte do parágrafo. 


Naquele dia, depois de plomar, fui ver drão o Zé queria ou não ir comigo à clamba.


Qual dos enunciados abaixo, você selecionaria para chegar a uma conclusão desse parágrafo:

a) Costuma-se ir à praia porque o cansaço do trabalho é demasiadamente prejudicial. 
b) A companhia de pessoas e a ida à praia proporcionam descanso à vida do trabalhador. 
c) Zé é qualquer amigo que aparece quando estamos sozinhos e cansados. 
É bem óbvio que você, vai ficar com a alternativa (B), pois a amizade é, sim, algo que pode proporcionar descanso... Só que essa companhia não vai existir no decorrer da narrativa, mas a ideia de descansar irá continuar. Então procure identificar os conceitos abstratos de cada percurso (partes do parágrafo com sentido) para treinar sua capacidade de identificar "níveis profundos" de comunicação. 

Você vai fazer várias abstrações: frustração, ansiedade, insegurança, etc desse texto. Após, essa identificação, tente "sintetizar" a narrativa escrevendo um poema no qual fique claro os conceitos que você identificou.

Por enquanto, abraços.

Até a próxima aula!