sexta-feira, 19 de julho de 2013

A Saúde será responsável por suscitar o etnocentrismo e a xenofobia




Fiz uma temporada na capital paulistana que durou seis meses no ano passado. Lá, ministrava aulas em uma faculdade de teologia. Lembro-me das constantes quedas de temperaturas bruscas nos períodos vespertinos - costumeiras do ar paulistano. Era comum os alunos ficarem adoecidos pelos resfriados, gripes, alergias e certas indisposições estomacais.

Acompanhei três vezes alunos até às Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) em três ocasiões diferentes. O primeiro estava febril, com vômitos e náuseas. O segundo havia se machucado no futebol e ficou com o braço inchado. E o terceiro, havia trabalhado no sol e teve queda brusca de pressão e com fraqueza.

O fato de eu estar narrando estes episódios deve-se à coincidência de que todos os três alunos foram atendidos pelo mesmo médico. E em todos eles, o diagnóstico foi de dois a três minutos de consulta. Nenhuma receita foi prescrita, mas todos saíram de lá com Benzetacil injetável nas nádegas.

Adentrei à sala do médico e apresentei-me como professor universitário que estava acompanhando os alunos. O médico era um boliviano, naturalizado brasileiro. Fez medicina na Bolívia, fez regência no Brasil e “validou o diploma no Brasil”, conforme prevê a lei. Como educador, reconheço que ele sofria do “erro de familiaridade”, ou seja, em sua cognição para definir o diagnóstico, associava um único sintoma aos demais casos de saúde dos pacientes, logo todos deveriam receber a injeção indistintamente.   

Tal fato remeteu-me um ano anterior à minha chegada no Brasil, quando tive uma crise de rinite alérgica nos Estados Unidos. Rapidamente, fui à clínica da universidade. A médica era de origem indiana (muito comum lá). Conversou comigo sobre minha rotina, sobre doenças dos meus familiares e sobre medicamentos que tomava nessas ocasiões. Ela não auscultou meus pulmões, não aferiu minha pressão e temperatura e nem olhou ouvidos e garganta – procedimentos que já estava acostumado aqui no Brasil. Logo, entendi que nos EUA evita-se o contato físico do médico com o paciente.

Não sou contra a vinda de médicos estrangeiros para ajudar o Brasil. Sou contra a ignorância das autoridades governamentais em não entender o processo transcultural que ocorrerá nesse processo. Nossa presidenta está colocando em risco outros fatores que vão, inevitavelmente, atingir a cultura brasileira. Primeiro será o do etnocentrismo, isto é, as associações médicas e conselhos regionais hão de corporatizar-se contra os estrangeiros. Os médicos brasileiros já alcançaram níveis de especialização em várias áreas da saúde, tornando-se renomados mundialmente. Muitos até acabam indo embora por causa das condições de trabalho (aqui é que reside a diferença). O estrangeiro será ignorado pelos brasileiros quanto à capacidade de atendimento, conhecimento das doenças locais e, principalmente, o de “explicitar culturalmente a doença aos pacientes”.
O segundo será o da xenofobia, ou seja, medo total pela outra cultura, um tipo de rivalidade entre os povos. Imagine ir ao consultório médico e não ser examinado pelo especialista. Se ele for estrangeiro, automaticamente virá o “medo”, o “ódio”, a “rejeição”. Reconheço que não sou especialista para fazer essa afirmação, mas faço isso porque comparo-a com o sentido inverso da cultura brasileira. Explico: nós, brasileiros, sempre valorizamos o “produto” estrangeiro melhor do que o nosso (telefonia, correios, bancos, eletrônicos, políticos, etc), mas em questão de futebol e saúde nós não abrimos mão.

Se o governo brasileiro não for criativo e inteligente para amenizar essa tensão, penso que a Saúde, de cinco a dez anos, será a responsável por torná-la “inimiga”. Precisa-se trabalhar o imaginário da população de que a melhoria será representado pelo estrangeiro. Mas tudo indica que a presidenta tem outros “interesses”, pois nem sequer consultou as áreas de competência. Antes, precipitou-se e está mexendo em time que estava ganhando. Como disse, não sou especialista, mas vou adiantar: querem transformar o Curso de Medicina, nível de graduação universitário, para o nível do “medical school”  do modelo norte-americano – quem tem ouvidos, ouça o que isto quer dizer.