sábado, 4 de abril de 2015

Feliz Páscoa!




Não é fácil escrever sobre a páscoa, seja ela a cristã, a judaica ou até mesmo as páscoas dos povos. Qualquer tentativa de ilustrar o sentido, cada palavra ou expressão são descrições, ora históricas, ora religiosas, ora metafísicas, ora da experiência humana de superar sofrimentos. Hoje, serei mais um a atrever-se a refletir sobre esta festividade.

A páscoa é um evento celebrativo. Deve-se festejar, alegrar, comemorar, participar do rito. Ela é a celebração da vida, não da vida que mensuramos no nascimento, mas a cada momento em que damos um recomeço na construção dela. Afinal, a páscoa, enquanto celebração, possui o poder de nos fazer pertencer à renovação das desilusões, das depressões, das angústias, das desesperanças, das perdas e, principalmente, dos maus hábitos e vícios geradores da morte. Devemos celebrar a páscoa porque, como humanos, temos que entender a respiração, o trabalho e a relação afetiva a possibilidade de nos alegrar, ou melhor, a de pertencer à Criação e ao Criador. Deixar de celebrá-la é renunciar à oportunidade de dizer que é ser vivente. Celebrar a páscoa é sinal de viver a vida. Participe do rito, não o que é imposto pelas culturas do comércio, indústria e religião. Participe do rito de sua própria vida, afinal você é, hoje, a prova de que páscoa já te alcançou e tem feito renovações constantes em seu espírito, em sua alma e também no seu corpo. Celebre-a, portanto.

A páscoa também é um evento histórico. Ela teve a competência de registrar em culturas remotas a ritualização que fez compreender o sentido de libertação, de renascimento e de redenção humana. A páscoa é uma das performances que a História nos deu: ela implantou o divisor de povos, de calendários, de situações temporais e espaciais, também deliberou as estratégias da economia e vem, mais recentemente, determinando os alcances socioculturais do devir histórico contemporâneo. A páscoa é sim a marcação do passado sendo recontado pelo presente a fim de indicar a prosperidade do futuro. Há indivíduos que têm ignorado-a, até mesmo historiadores. Mas aqui, afirmo que contar a páscoa é como entender a dinâmica da história, conquanto a própria História impõe-nos uma leitura redentiva do mundo. O olhar melancólico sobre a história é necessário, mas a páscoa faz-nos acreditar que ocorrerá na História a inserção divina definitiva... e é neste sentido que, em cada páscoa, a História redime a humanidade. Ouse inscrever seu nome na História através da páscoa... Fazer isso é o “devir histórico” de cada um de nós.  

A páscoa é essencialmente religiosa. Ela religa a criação ao Criador, ela exemplifica e tipifica o plano divino de renascer, ressurgir, ressuscitar. Imagine vários “modelos” culturais e religiosos da páscoa: fênix, que ressurge das cinzas; o coelho, que traz o sentido da fertilidade; o cordeiro imolado e a passagem de Deus sobre o Egito; o túmulo vazio, que prova a ressurreição do Salvador, entre outros. Sei que há outros, inclusive os hollywoodianos, tais como Matrix, Avatar, Senhor dos Anéis, Interestelar, etc. Como estudioso, ficarei com a ilustração do túmulo vazio porque ela nos dá a dimensão do efeito redentivo. Não é uma volta à vida, mas a volta com uma vida totalmente transformada. Não existe renascimento sem transformação. A ressurreição nos permite entender o porquê das radicais mudanças na vida: ética, moral, estética, profissional, social, enfim integral. A ressurreição é como uma semente em nossa consciência. Ela foi plantada quando entendemos a essência do Redentor em nós. Ela já germinou e vem crescendo constantemente. Não é uma proposição autenticamente religiosa, mas é a compreensão de que cada criatura se sintoniza com o Criador mediante o efeito redentivo. 

Nenhum elemento da criação ressurgirá sem o efeito desse ato redentivo, nem mesmo os que dizem não aceitar tal proposição... A criação é o palco onde a ressurreição acontecerá: todos os eleitos e todos os não eleitos. A ressurreição é a potência divina em nós, levando-nos à compreensão da eternidade, da esperança vindoura, do amor incomensurável, da graça vivificante e da justiça plena de participarmos da glória do Soberano. A supremacia do Redentor tem sido outorgada às grandes “cabeças” (lideranças), sejam elas cristãs, evangélicas, judaicas, enfim outros simulacros religiosos. Todavia, tais cabeças reduzem o tema da ressurreição ao deus Mamon: ovos de chocolate distribuídos aos fiéis...

Há anos temos sido dominados pela páscoa demoníaca. Sim, os demônios da Economia e da Política também têm ludibriado as lideranças religiosas. Ora, se a política nacional precisa do efeito da ressurreição para que haja nova redenção brasileira, novos políticos, totalmente redimidos (transformados), mais ainda as igrejas brasileiras (entendam-se as denominações como partidos). A religiosidade cristã-evangélica não ressurgiu, mas vem reproduzindo o modelo econômico e político do cenário nacional. Não há redenção para os que outorgam esse tipo de engodo.

Amo ovos de chocolate e até presenteio alguns próximos a mim com eles. Jamais na época da páscoa. Como dizer para alguém: “Feliz Páscoa”, se ela espera de mim ovos de chocolate? Lamentável mesmo, não é? Pois bem, continue assim e deixe de dialogar sobre como você vem sendo transformado e renascido das cinzas. Afinal, Ele levantou-se do túmulo e tem vivido até hoje em nós, através do Seu Espírito. Creio que precisamos renascer para a própria páscoa.

Deixe a páscoa fazer sentido para ti. Pelo menos, hoje. Precisamos renascer. Ressurgir “dentre os mortos” e ressurgir com novidade de vida. Afinal, quando Ele “levantou-se” quis dizer “Feliz Páscoa, pois ressurgi, estou vivo”.

Por último, há algum tempo tenho tentado ser diferente. Algumas superações, conquistas, reconfigurações, remodelagens e até mesmo ressuscitações. Vejam bem “ressuscitações”, não ressurreições. Não é fácil viver, não é fácil crer, não é fácil ser humano. Difícil é não querer viver, não querer crer e querer ser divino. A cada páscoa, ressurjo de uma perda: a de crer esperançosamente de que a promessa feita há de ser cumprida. Creio nisto, vivo por isso, celebro isso e registro isso. A páscoa, para mim é tudo isso: celebração, história e religião. Há outros, mas esses três sintetizam o que venho confirmando através das constantes transformações de minha vida.

Hoje, digo-te: “Feliz Páscoa! Ele levantou-se”!