domingo, 26 de fevereiro de 2017

Serviço carismático

A fé exerce uma influência, ou até mesmo dominação, sobre cada um de nós, por causa da adesão feita a Jesus Cristo. Deve-se considerar a fé como o carisma (dom) cuja força induz todos os fiéis à compreensão da promessa, ao exercício da obediência e ao cumprimento da missão. A fé, mais que qualquer outro dom, é o fio condutor de energia divina para todos os receptores da esperança na volta do Ressuscitado, da variedade de serviços prestados ao socorro integral da vida humana, e, graciosamente, da ação redentora de toda a criação.

É claro que este controle é uma ação do Espírito Santo sobre os que creem, afinal confiar é uma exigência divina somente para os habitados pelo Espírito dele. Neste sentido, o Pneuma capacita os fiéis através do ensino escriturístico, normativo e histórico acerca dos valores do reino de Deus. Ele também age sobre a memória (consciência), em análise de confronto, para que, em cada ação (agir, fazer, pensar) haja atitudes santificadas por Ele. O Espírito é quem separa as ações que cada agente irá utilizar para que, definitivamente, o desígnio divino seja cumprido. Não é uma ação randômica (aleatória), mas sistemática. Todo agir do Espírito sobre as pessoas se encontra dentro de um sistema carismático, cuja finalidade é conduzir o(a) fiel à mente de Cristo e glorificar o Pai. Qualquer menção, ainda que declare “em nome do Espírito”, fora do sistema carismático torna-se charlatanismo, pseudonomismo e, drasticamente, heresia.

Deixando de lado as terminologias, pois para os católicos o mais comum é 'carismático', devido ao movimento carismático, e para os evangélicos, o termo mais comum é avivamento, segue-se que a compreensão sobre a ação do Espírito Santo sobre a estrutura eclesiástica é discutível sim, mas não negada. Seja como for, existe sim um sistema que diz respeito aos ministérios da igreja cristã. O sistema carismático é a base de toda e qualquer ação missionária da fé cristã. Não existe outro. Há os que leem passagens bíblicas sobre os dons, tais como Romanos 12, 1 Coríntios 12-14 e Efésios 4, e, literalmente, advogam esta lista de carismas como os ministérios a serem desenvolvidos pela comunidade. E, de fato, é isto mesmo. Melhor ainda, se cada comunidade conseguisse tornar a igreja também carismática, além de seus membros. Isto mesmo! A igreja é um organismo que precisa também ter as suas estruturas de funcionamento e de organização alcançadas pela ação do Espírito. A igreja caminha na força do Espírito na medida em que ela é totalmente carismática.

Os carismas são presentes divinos, concedidos à humanidade por Deus. Eles se referem às capacitações divinamente doadas, às aquisições de habilidades específicas e às competências proféticas e pastorais, além dos inúmeros talentos agregados. Os dons são serviços oferecidos e executados para o resgate da criação de Deus. Eles são infinitos! Não existe exatidão em suas performances, afinal são soberanamente decididos por Deus. Os dons são respostas às necessidades emergenciais do mundo. Se entendidos desta maneira, cada comunidade é um presente para o bairro, para a cidade e para o mundo.

De certa forma, as áreas temáticas, descritas em ambientes universitários, deveriam também ser indicadoras da atuação missionária da igreja cristã. Estas oito áreas temáticas (comunicação, cultura, direitos humanos e justiça, educação, meio ambiente, saúde, tecnologia e produção, trabalho), certamente, inovariam a estrutura organizacional de ministérios de cada comunidade, de tal forma que cada uma delas iria repensar as necessidades do cotidiano. Há regiões que não precisam de evangelização (entendida como anúncio da salvação), mas de trabalho. Outras não precisam de profecia (entendida como visão e sonhos), mas de denúncias de agressão e violência à criança e à mulher. O que dizer a respeito de uma região que não precisa de intercessão (entenda-se reunião de oração), mas de socorro imediato por meio dos agentes da saúde, pois tal região está infestada pelo mosquito da dengue? Enfim, repensar os serviços a partir das áreas temáticas não é loucura, é uma alternativa pastoral para conduzir as ações ministeriais da igreja para a cidade.


Espera-se que, além dos serviços convencionais, tradicionalmente existentes nas comunidades, possam agora reformarem-se, a fim de que se elas tornem-se em ministérios mais efetivos e transformadores. A fé cristã é sim muito dinâmica e está sempre em constante movimento. Ela não deve ser um conteúdo de especulação, de dogmatismos insalubres, de pregações inférteis, de populismo sem oposição e de preferências teológicas. A fé cristã é um serviço gratuito às pessoas que necessitam da graça de Deus para compreender o amor, a salvação e a esperança. Todos os que congregam com este sentimento submetem-se obedientemente à carismatização do Espírito, e, consequentemente, contribuem para a renovação da fé. 

sábado, 31 de dezembro de 2016

Cicatriz da saudade do amor





A vida é como um enunciado de estado. Fala-se uma frase e, analiticamente, reconhece-se dimensões dos estados da alma. Ou ainda, em orações com períodos longos, percebe-se as nuances dos sentimentos expressos pela vivência e experiência humanas. Ninguém é isento de enunciados de estado, afinal todos são vítimas das emoções. Cada um de nós é foco dos sentimentos, cuja alma recebe dialeticamente as vicissitudes da própria caminhada e da busca pela existência consciente no mundo. Ignorar a identificação dos estados de alma é sucumbir às doenças sociais pós-modernas, sendo a depressão a maior delas. Sendo assim, a maior emoção sentida é a de viver.

Os enunciados de estados são dois. Um é de posse e o outro é o privação. A posse se caracteriza por aquilo que se adquire, ganha, recebe, conquista, obtém, etc. “Eu comprei um carro” é um tipo de enunciado característico da posse. Não importa o mecanismo de articulação ou lógica de argumentação, pois no final a construção das sentenças é para elucidar e persuadir a todos, visto que o sujeito é a vítima da posse. Já a privação opõe-se fortemente ao estado de posse. “Cheguei ao serviço hoje e anunciaram-me que havia sido demitido”. Havia um empregado e, depois do anúncio, passou-se haver um desempregado. Posse e privação são, portanto, o foco dos enunciados. Deve-se atentar para a construção de como eles se articulam, pois é desse efeito de transição entre os enunciados que são identificadas as emoções.

Até aqui, pode-se entender a dinâmica da vida como a transição entre os estados de alma, caracterizados pelos enunciados de estado de posse e de privação. E, uma vez identificados, analisa-se as emoções. Por exemplo, o que é a felicidade senão uma satisfação, um contentamento? Mas quando vista pela análise destes estados, então a felicidade passa a ser os itens que sustentam e revelam estas emoções. Por isso alguns “sentimentos” serão, muitas vezes, simbolicamente representados por objetos reais da vida humana, sejam eles eufóricos (positivos) ou disfóricos (negativos). Estudar e compreender as emoções são excelentes oportunidades para conhecer os limites de superação do ser humano. Neste sentido, as emoções são indicadores dos níveis de satisfação e de insatisfação.

O que é a saudade? Afinal, é uma palavra cuja descrição semântica só é existente em Língua Portuguesa. Saudade é uma cicatriz causada pela lembrança eterna de alguém que amamos e que, pela jornada da existência, a perdemos. Ela é um período sem fim, através do qual há estímulos acerca de nossa formação (“morphosis, desenvolvimento e comportamento social) e transformação (“metamorphosis”, maturação e identidade). A saudade sempre será um estado de privação, mas que será superada pela enorme quantidade de posses conquistadas. “Não se mata a saudade, vive-se dela”. Deve se pensar na saudade como um dom divino, cujo objetivo é viver na esperança de ver a Deus face a face. A saudade é o destino das utopias, nunca será alcançada, mas sempre existirá como o alvo a ser conquistado.

Quem já perdeu alguém, experimenta a saudade dia a dia. Vive-se liturgicamente o luto da lembrança. As reminiscências são atos celebrativos, cujos ritos reforçam a perda e amenizam a dor. A saudade é sim uma cicatriz porque sinaliza a vida em aperfeiçoamento, tanto pelos sentimentos e pelas emoções, como pela volição e pela razão. Saudade é a habilidade de lidar consigo mesmo, seja melancólico ou eufórico, pois é através dela que descobre-se a experiência da saudade que havia na vida de alguém. E ela sóé verdadeira porque é o resultado do campo da alteridade. É a descoberta da relação do “eu” com “você”. Enfim, a saudade é de você, nunca de mim mesmo!

Quem já amou e não conseguiu mantê-lo, vive da ilusão da saudade. Sim, a saudade ilude à medida que não se entende a lição ensinada. Vive-se na busca de paliativos: sexo, dinheiro, drogas, jogos, bebidas, etc. Diz-se que os melhores placebos são os para a saudade, e eles vêm embrulhados em formato social de ‘pequenas simpatias’ ou mesmo ‘crendices populares’. Mas a melhor saudade é a do amor, porque ela revela a força de amar eternamente e a fraqueza de deixá-lo escapar. A saudade do amor é o motor de quem acredita na esperança, ou mesmo de quem crê no reencontro, ou mesmo de quem deposita toda a vida na expectativa de redenção futura. Não se vive para o futuro, espera-se nele. Não se vive para o passado, aprende-se dele. Vive-se para o presente acreditando. Crer é o aprendizado da saudade do amor, porque faz-nos viver eternamente.

A força da saudade não nos controla, ela inclina-nos à organização da vida. Quem bem alimenta as suas saudades, frutifica-se com lembranças, esperanças, futuridade e alteridade. Trata-se de alguém que mais se preocupa em aproximar-se da força de si do que deixar que as convenções sociais forcem-no a fazer. A saudade é um ímã que atrai as pessoas para o entendimento e as repele da angústia. Não há vida sem a presença da saudade!

Há uma única cicatriz da saudade, mas ela é alimentada por muitas experiências da vida, sendo o amor a maior delas. 

domingo, 21 de junho de 2015

Partida e retorno





Vim só para te avisar: "em breve, partirei"
Sendo assim, vou viajar. Lá, me tornarei
Resíduo para adubar. E de semente ser Rei
Em cova, hei de descansar. Lembre-se: "ressuscitarei"

A semente não vai germinar. Apenas lembranças serei
Duas gotas d'água a tomar. Das veias da terra, beberei 
E depois da dor de cear. A seiva final derramarei
Para todos, a vida a celebrar. Liturgia eterna cantarei

No túmulo, calafrios hão me acompanhar. Congelarei
Porque no silêncio, o som está a aumentar. Adoecerei
E no madeiro, corpo podre a deteriorar. Desaparecerei 
Na redenção final, ossos limpos a ficar. Remodelarei

Após a decomposição, o dia vem a acalentar. Cozinharei
E as muitas partes do modelo hão de formar. Renovarei 
As vozes vivas haverão de se comunicar. Proclamarei
No meu mundo, a alegria está a me despertar. Liderarei

Ao novo povo, a morte a deletar. A eternidade a todos darei
E energia divina e pura a todos a curar. O Espírito de vida concederei
Rios de amor a despejar. Porque dos leitos a todos levantarei 
Sementes lançarei à terra a germinar. E frutos produzirei

Na nova sociedade, hei de reinar. Rememore-se: "andarei"
Meus súditos serão discípulos da justiça a administrar: todos conduzirei
Sem excessão, todos virão a mim visitar. Aqui os perdoarei
Agora, posso anunciar: "meu reino estabelecerei"

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Caçando a felicidade





A felicidade é uma frequente busca. É como a caça ao tesouro perdido. Ou ainda, é a utopia das emoções paradisíacas. Ela não é algo inconquistável, mas várias batalhas de uma única guerra. Cada um de nós é como soldado alforjado em busca de ações que nos dê a sensação de prazer, conquista, poder, satisfação e realização. A busca, então, é a caça que fazemos diariamente para afirmar que estamos felizes. 


Ser feliz não é só uma sensação do estado de espírito. É a consciência de que estamos batalhando em trincheiras, nas quais, muitas vezes, é o tipo de luta que precisamos para ganhar a felicidade. Por exemplo, o emprego que almejamos, mas que será conquistado por meio de concursos. Por mais que hajam vagas, a luta é sempre pelo extermínio de outros. De fato, a minha felicidade não é porque passei, mas porque consegui eliminar muitos... Emprego é a ilusão da caça que se faz pelo ideal de felicidade.


Outra batalha a ser vencida é a do dinheiro. Diz-se que o dinheiro compra a felicidade e, sendo assim, cada um de nós tem um preço. Há uma música que diz sobre as pessoas procurando a “etiqueta de preço” (Price Tag) porque julgam que as vendas vêm em primeiro lugar. O que dizer disso? Só posso afirmar que, devido à essa metodologia do pensar, as exigências éticas foram totalmente ignoradas e a verdade vem sendo negligenciada. O futuro será aquela sociedade na qual cada cidadão é identificado pela etiqueta de preço. Neste sentido, a felicidade é uma etiqueta cujo preço é marcado pela ausência da ética.


E o que dizer do amor? Esse sim é o objetivo da felicidade. Falo do amor erótico, aquele que sentimos a paixão como diretriz da vida! Esse tipo de amor se contrapõe ao faz emergir as sensações de realização, conquista e, acima de tudo, poder. Neste sentido, o “poder” é sinônimo de “dever”. Todo mundo deve ser feliz, cada um com dimensões diferenciadas, mas todos têm tal direito. A felicidade é significativamente as dinâmicas do amor. A satisfação ou realização é a caça que precisamos prender e saciar-se dela. Os depressivos sofrem desesperadamente porque não conseguem definir a caça do amor.


Há outras batalhas precursoras da felicidade, todavia quero falar sobre a luta dos relacionamentos. Essa é indiscutivelmente a mais difícil. Pessoas se relacionam entre si por causa de minuciosos jogos de interesse. A batalha consiste justamente na identificação objetiva de cada um desses jogos. A pessoa que está contigo pode te trair e fazê-lo “perdedor” durante e no final do jogo. Os relacionamentos são descrições de contratos sociais, através dos quais são percebidas as lacunas de suspeições, atrevimentos e impensáveis dissoluções da parceria. Neste sentido, a união de pessoas não é a melhor forma de felicidade, mas a intensidade e as provas que um pode demonstrar para o outro. Os infiéis exemplificam o porquê da felicidade nos relacionamentos ser uma catástrofe. Talvez, a busca pelos relacionamentos esteja no encontro de si mesmo e na disseminação da alegria interior ser projetada para o alcance de outros. Ninguém amará o próximo se a si mesmo não julgar-se a potência da relação feliz.


Quero terminar, considerando que a garantia da vida é como sendo a caça frequente que fazemos para ser feliz. Uns encontram-na posição que exercem pelo trabalho. Afinal, a qualificação profissional é a prova do emprego conquistado. Quem é “formado”, mas não exerce a profissão, acaba frustrando-se. Quem já conquistou, vive na busca incansável de “defender” o território. E há outros que têm na avareza a sutil e inócua garantia da felicidade. São os consumidores viciados no ganho e uso do dinheiro. Também são os emissários do diabo nas estratégias da compra e venda da alma humana. E há também os iludidos pela busca afrodisíaca da eroticidade, da paixão, da carne, da libido – esses representam o devaneio dos desejos desenfreados. Hoje, a sociedade é o caos da libido sem freio. Por fim, há os que destinam-se para o outro. É a alteridade impondo as regras do jogo: ser feliz consigo mesmo para que o outro se contagie e seja alcançado por ti.
 
Agora vou sair. Vou à caça. Quero ser feliz e devo ser feliz!

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Transparência






Amanhã, deixarei que me abram para que vejam aquilo que já sei. Afinal, os alquimistas conseguirão entender o que significa religiosamente viver a esperança dos sufrágios. Neste sentido, “abrir-se” é como uma desvelação humana, é como sair da existência para entrar na essência. O objetivo último de todos nós é tornar-se essência com o Numinoso. Não precisamos de diagnóstico, mas de diretrizes que nos colocam no caminho da eternidade. Ao deitar-me na maca, como cobaia da dessecação, serei corpo inerte, sem ação, sem vontades, mas estarei vivo porque artificialmente serei sustentado por máquinas e eletrodos. Estes últimos serão sensores, indicando minha existência... Porquanto, na anestesia do corpo, sentirei o silêncio ausentando-se da vida e presenciarei a chegada do aguilhão.

Por isto quem antecipa a intimidade com o Grandioso é, sem dúvida, os que já não conseguirão mais gozar desta felicidade carnal, nem desta nuance terrena de euforias sexuais e, nem mesmo dessa mistura de fluídos seminais e, muito menos ainda, dos sentimentos deleitosos. Eles são os que entenderam a missão sem fim, aquela missão que nunca atinge o alvo, nem cumpre profecias, nem realiza sonhos. Mas uma missão que inaugura novos alvos, novos desejos, novos sonhos, enfim, novas dimensões. A futuridade sempre se inicia com o fim dos guerreiros bravos, destemidos e fiéis. O único combate conquistado é o da fé: afinal, sem ela nem o amor próprio é conquistado, apenas se torna ludibriador das emoções e dos sentimentos.
 
E, como já disse, preciso ser aberto para ser revelado. Não é fácil ser transparente em mundo de opacidade. Não é vantagem querer ser feliz se o ambiente é de sofrimento. Nem é bom para a alma amar alguém que sempre irá te rejeitar. A transparência é a ilusão dos que buscam a verdade através dos comportamentos. “Quantos são os portais de transparência se é a corrupção quem faz iludir a própria verdade”? Para mim, a transparência é a satisfação plena que tenho, quando sei que há alguém em quem eu possa depositar todas as minhas inquietações: esse alguém sempre será o foco da minha verdade, da minha alegria e do meu amor. Transparência é a essência da felicidade, da verdade e do amor.


Todavia, há alguns que foram iludidos pela falsa transparência. Não se contentam com o meu testemunho. Eles precisam me abrir para encontrar as vísceras, as veias e os músculos. As vísceras, porque querem mexer nelas e fazer-me sentir o opróbio dos mortais. As veias, porque sabem que sou energizado pelos fluxos que dinamizam todo o meu organismo. E, dos músculos, porque querem me machucar, costurar, marcar, perfurar e desenhar. Tenho sido os “pings” e “pongs” das buscas pela transparência. Meu corpo é o fascínio de que há algo sobrenatural, enquanto minha alma é a secreta volição de minha essência. E o meu espírito, que diz-me acerca da eternidade, já vem dando-me a compreensão de que os axiomas dos que me rodeiam são “temporais”. Afinal, a minha competência foi compreendida como inimiga das vantagens e oportunidades. Eles não podem agarrá-las, e também não permitem que eu as tenha.  


Neste sentido, quando me abrirem, vão encontrar um espelho. Não o de Machado. Meu mesmo. Um que não refletirá a imagem, nem a essência, mas a autoimagem. Afinal, a transparência é o reflexo de si mesmo, conquanto nele mensura-se os valores que hão perpetuar-se eternamente. 

sábado, 4 de abril de 2015

Feliz Páscoa!




Não é fácil escrever sobre a páscoa, seja ela a cristã, a judaica ou até mesmo as páscoas dos povos. Qualquer tentativa de ilustrar o sentido, cada palavra ou expressão são descrições, ora históricas, ora religiosas, ora metafísicas, ora da experiência humana de superar sofrimentos. Hoje, serei mais um a atrever-se a refletir sobre esta festividade.

A páscoa é um evento celebrativo. Deve-se festejar, alegrar, comemorar, participar do rito. Ela é a celebração da vida, não da vida que mensuramos no nascimento, mas a cada momento em que damos um recomeço na construção dela. Afinal, a páscoa, enquanto celebração, possui o poder de nos fazer pertencer à renovação das desilusões, das depressões, das angústias, das desesperanças, das perdas e, principalmente, dos maus hábitos e vícios geradores da morte. Devemos celebrar a páscoa porque, como humanos, temos que entender a respiração, o trabalho e a relação afetiva a possibilidade de nos alegrar, ou melhor, a de pertencer à Criação e ao Criador. Deixar de celebrá-la é renunciar à oportunidade de dizer que é ser vivente. Celebrar a páscoa é sinal de viver a vida. Participe do rito, não o que é imposto pelas culturas do comércio, indústria e religião. Participe do rito de sua própria vida, afinal você é, hoje, a prova de que páscoa já te alcançou e tem feito renovações constantes em seu espírito, em sua alma e também no seu corpo. Celebre-a, portanto.

A páscoa também é um evento histórico. Ela teve a competência de registrar em culturas remotas a ritualização que fez compreender o sentido de libertação, de renascimento e de redenção humana. A páscoa é uma das performances que a História nos deu: ela implantou o divisor de povos, de calendários, de situações temporais e espaciais, também deliberou as estratégias da economia e vem, mais recentemente, determinando os alcances socioculturais do devir histórico contemporâneo. A páscoa é sim a marcação do passado sendo recontado pelo presente a fim de indicar a prosperidade do futuro. Há indivíduos que têm ignorado-a, até mesmo historiadores. Mas aqui, afirmo que contar a páscoa é como entender a dinâmica da história, conquanto a própria História impõe-nos uma leitura redentiva do mundo. O olhar melancólico sobre a história é necessário, mas a páscoa faz-nos acreditar que ocorrerá na História a inserção divina definitiva... e é neste sentido que, em cada páscoa, a História redime a humanidade. Ouse inscrever seu nome na História através da páscoa... Fazer isso é o “devir histórico” de cada um de nós.  

A páscoa é essencialmente religiosa. Ela religa a criação ao Criador, ela exemplifica e tipifica o plano divino de renascer, ressurgir, ressuscitar. Imagine vários “modelos” culturais e religiosos da páscoa: fênix, que ressurge das cinzas; o coelho, que traz o sentido da fertilidade; o cordeiro imolado e a passagem de Deus sobre o Egito; o túmulo vazio, que prova a ressurreição do Salvador, entre outros. Sei que há outros, inclusive os hollywoodianos, tais como Matrix, Avatar, Senhor dos Anéis, Interestelar, etc. Como estudioso, ficarei com a ilustração do túmulo vazio porque ela nos dá a dimensão do efeito redentivo. Não é uma volta à vida, mas a volta com uma vida totalmente transformada. Não existe renascimento sem transformação. A ressurreição nos permite entender o porquê das radicais mudanças na vida: ética, moral, estética, profissional, social, enfim integral. A ressurreição é como uma semente em nossa consciência. Ela foi plantada quando entendemos a essência do Redentor em nós. Ela já germinou e vem crescendo constantemente. Não é uma proposição autenticamente religiosa, mas é a compreensão de que cada criatura se sintoniza com o Criador mediante o efeito redentivo. 

Nenhum elemento da criação ressurgirá sem o efeito desse ato redentivo, nem mesmo os que dizem não aceitar tal proposição... A criação é o palco onde a ressurreição acontecerá: todos os eleitos e todos os não eleitos. A ressurreição é a potência divina em nós, levando-nos à compreensão da eternidade, da esperança vindoura, do amor incomensurável, da graça vivificante e da justiça plena de participarmos da glória do Soberano. A supremacia do Redentor tem sido outorgada às grandes “cabeças” (lideranças), sejam elas cristãs, evangélicas, judaicas, enfim outros simulacros religiosos. Todavia, tais cabeças reduzem o tema da ressurreição ao deus Mamon: ovos de chocolate distribuídos aos fiéis...

Há anos temos sido dominados pela páscoa demoníaca. Sim, os demônios da Economia e da Política também têm ludibriado as lideranças religiosas. Ora, se a política nacional precisa do efeito da ressurreição para que haja nova redenção brasileira, novos políticos, totalmente redimidos (transformados), mais ainda as igrejas brasileiras (entendam-se as denominações como partidos). A religiosidade cristã-evangélica não ressurgiu, mas vem reproduzindo o modelo econômico e político do cenário nacional. Não há redenção para os que outorgam esse tipo de engodo.

Amo ovos de chocolate e até presenteio alguns próximos a mim com eles. Jamais na época da páscoa. Como dizer para alguém: “Feliz Páscoa”, se ela espera de mim ovos de chocolate? Lamentável mesmo, não é? Pois bem, continue assim e deixe de dialogar sobre como você vem sendo transformado e renascido das cinzas. Afinal, Ele levantou-se do túmulo e tem vivido até hoje em nós, através do Seu Espírito. Creio que precisamos renascer para a própria páscoa.

Deixe a páscoa fazer sentido para ti. Pelo menos, hoje. Precisamos renascer. Ressurgir “dentre os mortos” e ressurgir com novidade de vida. Afinal, quando Ele “levantou-se” quis dizer “Feliz Páscoa, pois ressurgi, estou vivo”.

Por último, há algum tempo tenho tentado ser diferente. Algumas superações, conquistas, reconfigurações, remodelagens e até mesmo ressuscitações. Vejam bem “ressuscitações”, não ressurreições. Não é fácil viver, não é fácil crer, não é fácil ser humano. Difícil é não querer viver, não querer crer e querer ser divino. A cada páscoa, ressurjo de uma perda: a de crer esperançosamente de que a promessa feita há de ser cumprida. Creio nisto, vivo por isso, celebro isso e registro isso. A páscoa, para mim é tudo isso: celebração, história e religião. Há outros, mas esses três sintetizam o que venho confirmando através das constantes transformações de minha vida.

Hoje, digo-te: “Feliz Páscoa! Ele levantou-se”!

sexta-feira, 6 de março de 2015

Guerra do Medo






Ontem você me procurou para dizer que tem medo de viver a vida. Sim, viver a vida. Geralmente, a humanidade tem medo da morte, mas não da vida. Afinal, a vida é a satisfação de nossa consciência de que existimos. E é “em vida” que aprendemos a crer na essência de ser eterno.

Viver a vida amedronta sim. Não é porque ela seja horrível ou, em contraponto, fascinante. É porque viver é uma missão, assim como morrer também é uma missão. Se não formos conscientes deste princípio, então perdemos as ricas oportunidades de aprender a controlar, a contornar, a superar e, graciosamente, a vencer o medo. Viver, então, é um aprendizado. E, muitas vezes, o conteúdo dessa aprendizagem é exatamente o medo.

                                                                        
O medo causa-nos a vivência da antecipação do sofrimento. O medo conduz-nos à ansiedade – que é um princípio da morte. E a nossa “humanidade” é cheia de motivos ansiosos. Até mesmo um relacionamento mal construído poderá ser interpretado como sofrimento. Imaginemos, pois, um casamento às vésperas de ser consumado, mas que poderá ser interrompido por causa da ansiedade. A ansiedade é um preço caro, pago por situações que nem aconteceram. Mas ela tem que plantar a semente em nossa consciência a fim de conduzir-nos à angústia, ao sofrimento, ao desespero, enfim ao medo de encarar a missão de viver.

Imaginemos uma doença... e que não há cura para ela. Resta-nos somente a fé. A fé é mais que resiliência, é o dom de acreditar com esperança, é a experiência de que a cura não é a resposta certa, é a certeza de que o clímax da missão terá seu desfecho no “cumprimento da vontade de Deus”. Crer é, assim, a responsabilidade de cumprir a missão. Porque, de fato, somos construtores da criação e, no plano salvífico, resgata-se a alma. “Porque aprendi a estar contente em todas as situações”.

Vencer o medo é o nosso alvo, mas há várias batalhas. Pelo menos, três. A primeira batalha é que cada um de nós precisa autoconhecer-se, aprender os limites de suas forças, de seus equipamentos de segurança, de seus mecanismos de defesa, de suas habilidades e competências profissionais e, principalmente a abrir-se para o mundo do inimigo. Sem autoconhecimento é impossível entrar na guerra – por isso, há muitos que ficam na dependência de outros. A segunda é uma batalha mais árdua de ser conquistada por nós hoje. Trata-se da rede de relacionamentos que devemos criar. Falo da família, dos amigos, das parcerias institucionais, das aventuras, do lazer e do prazer. Todos estes, saudavelmente construídos. E, por último, a batalha de aceitar-se como humano. A mortalidade não é o nosso fim. Temos que definitivamente aprender a deixar o legado da “bios” para iniciar o legado do “aiwnion”.



O sofrimento é como trincheiras da batalha que enfrentamos dia a dia. Mas a guerra a ser vencida é a do medo.