quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O sentido teológico e educacional de Efésios 1:10


Quero começar essa reflexão propondo o uso de uma metáfora, ou seja, uma figura de linguagem. A metáfora é usada para representar o pensamento, é uma comparação feita para exemplificar sentidos mais abstratos e complexos. Por exemplo, a cruz é uma metáfora da salvação. A ceia é uma metáfora do rebanho messiano, e assim por diante. Mas qual o sentido ao dizer que Cristo é a/o cabeça da Igreja. Há muitos que pensam tratar somente de liderança, governo, direção. Vamos pensar exegeticamente.

Um pouco de morfologia (estudo das formas das palavras) é necessário aqui. Em Efésios 1:10, aparece o seguinte texto em grego:

eivj oivkonomi,an tou/ plhrw,matoj tw/n kairw/n( avnakefalaiw,sasqai ta. pa,nta evn tw/| Cristw/|( ta. evpi. toi/j ouvranoi/j kai. ta. evpi. th/j gh/j evn auvtw/|Å


de fazer convergir nele, na dispensação da plenitude dos tempos, todas as coisas, tanto as do céu como as da terra;

Observe que, propositadamente, coloquei em negrito o verbo infinitivo aoristo médio depoente de avnakefalaio,w, que significa reunir, trazer junto, convergir. É um tipo de verbo composto, formado por preposição e substantivo. O termo em vermelho significa cabeça (cephale). Parafraseando, podemos afirmar que é o verbo encabeçar. Então, Cristo encabeça todas as coisas para que, através dele, tudo seja restaurado, transformado e redimido. De certa forma, trazer tudo e todos debaixo de Cristo consiste numa tarefa, que em termos de teologia prática, de exercício de evangelização, de discipulado, de crescimento e de maturidade. Portanto, um processo educacional.

É certo que liderar, governar, orientar, dirigir são sinônimos de uma mesma base semântica, entretanto há que se pensar sobre os efeitos que apenas a modalidade de liderança impõe sobre nossas abordagens. Confio, sim, na terminologia liderar, entretanto tenho sérias reservas se não há um bom projeto alinhado à educação. Deixe-me exemplificar. Pensemos nas Assembléias de Deus. Uma igreja evangélica pentecostal que durante anos viveu à luz da evangelização. Em meados dos anos 70, preocupou-se em alimentar solidamente seu povo através dos seus institutos de educacão e, mais recentemente, a criação de seus seminários e, enfaticamente, à criação da editora. Contrária a esse exemplo, temos a IURD (Igreja Universal do Reino de Deus), cujo crescimento é exponencial, mas o projeto educacional é desalinhado com o governo. Existe, sim, a preocupação, mas ainda é algo irrelevante.

A história ensina que há nações que colocaram a educação como primazia em seus projetos. O Japão se redimiu do caos bélico pós-guerra através da educação. Prisioneiros são obrigados a escrever e estudar durante todo o tempo em que estão nas celas. A educação foi encabeçada pelo Canadá como lei. A oferta de emprego é vinculada ao comprovante de matrícula escolar. Universidades registram a fila de espera de candidatos inscritos para seus programas. Desde a pré-escola, crianças são incentivadas a obterem high scores (altos índices) em seus boletins/históricos. Feliz a nação que convergiu (encabeçou) na educação a solução de seus problemas.  

Para esclarecer mais ainda, permita-me um outro exemplo. Em 2010, assumi a secretaria acadêmica de uma faculdade teológica. De imediato, percebi que a instituição possuía vários banco de dados, sem uma comunicação direta entre eles. Apliquei o princípio de Efésios 1:10, ou seja, reuni todos os arquivos em um só, cujo acesso permitia-me saber a situação de cada aluno. Ao indagar sobre o porquê de vários bancos de dados, foi dito que sempre quando havia mudanças iniciava-se um novo banco de dados. Esse tipo de abordagem me levou a concluir que a cultura educacional brasileira não reflete sobre como um determinado programa precisa ser encabeçado por outro sem, necessariamente, perder sua identidade curricular. É comum rejeitar o que outrora foi feito em aplausos ao novo. Vivemos a cultura do desencabeçamento, ou seja, referencial de liderança, de orientaçao. Aconcetece na educação, na economia, na política e na eclesiologia.

Então se Cristo é o cabeça, a tarefa cristã é essencialmente educacional. Em que consistem os programas (currículos) da educação cristã e da educação teológica? Eles refletem a conversão a Cristo? Faço essas perguntas porque temos de pensar em projetos, cursos, aulas, mas se não atentar para a abordagem, ou seja, a centralidade de Cristo, então nossa ação educacional é vã. Devemos lembrar que nossos currículos estão dentro de um projeto que se chama restauraçao (transformação, redenção e/ou recriação).

A educaçao é um grande instrumento que Deus nos deu para favorecer a transformação da sociedade. Oxalá nossa nação seja restaurada porque Cristo é o cabeça.

Relação de educaçao e teologia


Parece estranho teologia e educação unirem-se para sustentar o pressuposto que ambas foram especulações da filosofia acerca da teoria do conhecimento. Não fosse a distancia temporal produzir em nós as reminiscências, as vãs imagens de pseudo lembranças, resta-nos agora viver a partir dos registros daqueles que ousaram interrogar o porquê das coisas.

Questionar é aptdão para os que sabem meditar, contemplar e refletir. Essa faculdade pertence aos audaciosos da história, aos pensadores da finitude existencial e aos mestres. Refletir sobre a quatro dimensões da açao narrativa (ter-que/querer-fazer, poder-fazer, dever-fazer e saber-fazer) é tarefa somente dos que lidam com a arte de construir vidas, aquela feitura de conduzir o ser humano para a vida em sociedade. Questionar é, ainda, a arte de tecer comentários, cujas críticas (do grego, krivo) estabecerá os critérios para o julgamento correto. Criticar é poder responder os porquês e também colocar-nos no reto caminho. Perecemos porque não questionamos.

"Por que nasci?", "Quem é Deus?", "Para onde irei, se o fim é uma ilusão?"... Essas e muitas outras interrogações levam-nos a entender sobre o processo de ensino e de aprendizagem nos papéis de educador e teólogo. Para mim, teologar é a capacidade de transmitir especificamente as vontades divinas para cada criatura de Deus. Para que isso aconteça, o teólogo dever ser capaz de:

a) fazer a criatura interagir com o Criador e as demais coisas criadas;
b) conscientizar integralmente a criatura sobre o processo de redenção;
c) relacionar a reflexão bíblica e teológica com a eclesiologia missionária;
d) questionar as ações cristã-evangélicas individuais e institucionais, à luz de uma abordagem crítico-social com vistas à redenção de ambas;

Então, surge o papel do educador, aquele que irá conduzir a criatura ao conhecimento de Deus. Conduzir já indica-nos processo - algo que relfetirá sobre desenvolvimento, estágios, etapas, unidades epocais (ou temporais), abordagens, teorias, práticas, enfim percursos de acumulados de produção cognitiva, registro de práticas-experiências e fortuitos desafios de investigação.

Educar é levar o indivíduo ao pleno uso de suas habilidades para a cidadania, inserindo-o culturalmente ao contexto da globalização. É religar a criatura com o Criador e estabelecer definitivamente a consciência de cidadania celestial. Educar é promover o reino, cujos súditos guardam no coração os descretos divinos e os reproduzem a outréns. A arte de educar é para os que sabem sensivelmente produzir identidade no próximo, facilitando-lhe os níveis de conquistas e levando-o à liberdade. 

Saber teologia não significa teologar. Saber educação não significa educar. Ambas são dons divinamente concedidos, cuja unicidade é prova de que o teólogo ensina e o educador faz teologia. Aprendi mais teologia com o educador Ruben Alves do que quando o denominávamos teólogo. E também com o jornalista contemporâneo, Gilberto Dimenstein. E também com o crítico da modernidade e filósofo, Walter Benjamin. Além de Carlos Cipriani e Saviani. E aprendi muito mais educação com Júlio Zabatiero, Danilo Streck, Gabriele Greggersen e outros. Todos teólogos, mas também educadores. E há ainda os visionários, tais como: Carlos Eduardo Pereira, Jonas Dias Martins, Zaqueu de Melo e Antonio Carlos Barro. Teólogos e educadores amam o mesmo ministério.

Portanto, pensar em fazer teologia é pensar em processo educacional. É querer conhecer as abordagens, os métodos, os objetivos, os recursos e os conteúdos. É também cogitar sobre o tempo cairótico desse processo, é estabelecer os avanços no tempo cronológico para a plenitude do reino. Teólogos e educadores trabalham com o mesmo objetivo: educar para a cidadania (politeuesthe).