sexta-feira, 29 de março de 2013

Ferir-se para sempre


Acredita-se que a fé cristã consegue revelar os mistérios
Então, eu proponho um questionamento ainda mais sério
Sabe-se que é possível "perdoar" quem comete os adultérios
Mas como fica aquele que a si mesmo deu-se ao necrotério?

A morte fez-se nossa amiga junto com a consciência dos vivos
Ela surgiu em discussões e expulsões, fazendo-nos sair do abrigo
Desde crianças quando não entendíamos a dor aguda do castigo
Aparecia para nós maléfica e batía-nos com sentimentos nocivos

Ela se manifestou na ira das competições entre os seres pueris
Atingiu o corpo com doenças silenciosas. Nem perdoou os juvenis
Afetou a alma com sentimentos caóticos. Das angústias e dores febris
E tocou em tudo que vital na humanidade, curvando-lhe a ferida cerviz

A peste bege graduou-se como marca da aniquilação da vida
E tem sido pelos entorpecentes a redução dos jovens na lida
Não foi a humanidade que perdeu lugar para a morte oferecida
Mas será a posteridade da vida a desabitação na Terra Prometida

Enterramos os mortos para cumprir o ritual do último adeus 
Mas esquecemos de dar sumiço gradual aos vícios da alma. 
A morte inculca a possibilidade do suicídio que acalma
Como ambiguidade do desencanto do amor que leva os seus 

A morte ganhou relevância para que aprendamos a valorizar a vida
Ela veio contrapor-se à magia temporal da energia que conquista 
Dar cabo à vida é ignorar que a morte exige preços pagos à vista
Sofrer não é desejar morrer. É entender que a vida não é fingida

Quando ela chega, separa um a um dos muitos. É fatal
Os que ficam são os vencidos. Não se entende o trivial
As indagações não são respondidas. É segredo divinal
Mas para os que creem, a esperança do reencontro é real 

Apresentação (POE)


Seja bem vindo(a) ao curso de Como escrever poesia!

Será um tempo em que irei dar algumas dicas de como aprimorar a tua composição  (construção) poética. 


Por exemplo, veja, agora, esta figura ao lado. 

Trata-se de uma estrutura descartável de uma geladeira. Imagine que ela poderia ser levada à indústria de reciclagem e, depois de um longo processo, voltaria não mais como geladeira, mas como qualquer outro objeto formado por metal (latão). 

Tenho um amigo que é um verdadeiro agente de transformação. Ele é um artista! É acostumado a pensar sobre como algo pode ser transformado! Veja o que ele fez com essa "carcaça". 

Veja o resultado agora! Não é excelente? 
Isso não quer dizer que devemos apenas ver o estágio inicial, ou seja, como eu vejo no começo. E nem mesmo "pular" para o estágio final, o da pintura total (arte final). O desafio é que você mesmo permita observar os detalhes de tua formação criativa. É você quem dará a cor, o brilho, o ajuste, a intensidade, enfim, "a graça de ser poeta, alguém que domina as palavras".   

Escrever poesia é, sim, uma arte. Mas isso não quer dizer que devemos ficar sem exercitar a nossa verbe literária. 

"Poesia é uma ilha cercada de palavras por todos os lados" (http://cachacagermana.wordpress.com)

Minha proposta é estimular sua criatividade através da composição de poesias, como uma proposta de atividade do pensamento crítico.

Seja, então, bem vindo(a) ao curso.

Programa de Curso (POE)


(Leia atenciosamente a proposta do curso. Vá até o item 9 e clique na "Apresentação" e depois na "Aula 1"). 

1. Ementa

A arte de escrever poesia. Técnicas de descrição a partir da metaforização. Construção processual de imagens e tematização. Uso da observação e abstração.  


2. Objetivos do curso


Na área dos conhecimentos:


- desenvolver a cultura estética e literária da arte de escrever pela reflexão da cultura brasileira;

Na área das habilidades: 

- descrever diferentes situações pelo uso da perspectiva, da observação e da abstração;
- fazer comparações entre duas ou mais situações;
- fazer tematizações acerca de determinadas situações pelo uso da abstração.

Na área de formação das atitudes:

- redefinir a perspectiva de espiritualidade cristã sobre o sagrado a partir do entendimento com a experiência do aluno.

3. Justificativa do curso no desenvolvimento humano

Mediante os exercícios de observação e abstração, o(a) aluno(a) terá condições de descrever sentimentos, percepções e sínteses através da linguagem de forma lúdica, racional e literária. 


4. Metodologia de ensino 


Exercícios e indicações de sites através deste blog. Não usarei nenhuma plataforma específica. Recursos totalmente midiáticos. 


5. Avaliação


A avaliação é cumulativa e contínua, por meio dos exercícios de construção de textos poéticos. Em cada final de unidade, haverá espaço para avaliação dos textos produzidos.

6. Bibliografia básica


ANDRADE, Carlos Drummond. Sentimento do mundo. São Paulo: Companhia de Bolso, 2013.
BAKHTIM, M. Problemas da Poética de Dostoiévski. 3. ed. Traduzido por Paulo Bezerra. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002.
LEMINSKI, Paulo. Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

7. Bibliografia complementar

ANDRADE, Carlos Drummond. Poesia completa. Rio de janeiro: Nova Aguilar, 2002.
BANDEIRA, Manuel. Poesia completa e obra. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996.
BARROS, Manoel de. Livro sobre nada. Rio de Janeiro: Record, 1997.
HEIDEGGER, Martin. "A questão da técnica". In: Ensaios e conferências. Tradução de 
Emmanuel Carneiro Leão. Petrópolis: Vozes, 2002.
_________. Língua de tradição e língua técnica. Tradução de Mário Botas. Lisboa: 
Passagens, 1999.
HÖLDERLIN, Friedrich. Poemas. Tradução de Paulo Quintela. Coimbra: Atlântida, 1959.
NETO, João Cabral de Melo. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.
NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra. Tradução de Mário da Silva. Rio de 
Janeiro: Civilização Brasileira, 2006. 
PLATÂO. "O banquete". In: Os pensadores. Tradução de José Cavalcante de Souza. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
QUINTANA, Mário. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005

8. Periódicos e links (webgrafia)


9. Cronograma das aulas


Unidade 1: Introdução à arte de escrever poesia

Nesta unidade, você estudará as técnicas de observação e abstração para descrever objetos, pessoas, sentimentos e situações em diferentes perspectivas.


Aula 3: Temas

Aula 4: Produção de sentido

Aula 5: Produção de poesia (1)

Unidade 2: A metáfora como método estético do poeta

Nesta unidade, você assimilara o uso da metáfora como método de construção poética.

Aula 6: Metáfora viva

Aula 7: Metáfora e pensamento

Aula 8: Metáfora e poiésis

Aula 9: O mundo das metáforas

Aula 10: Produção de poesia (2)

Conclusão

O poder de pensar por si



Já observou que no mundo da vida, as estruturas são decorrentes da ação humana de pensar? Sim, tudo surge porque cogitamos conhecer das coisas. Vamos ao supermercado para comprar produtos, mas são as etiquetas dos preços, dos valores nutricionais, das embalagens, das cores, enfim de todo um arquétipo que nos faz refletir e tomar a decisão de adquiri-lo. Saímos de uma cidade à outra, munidos da habilidade de dirigir um carro, mas são as placas que nos fazem pensar que sabemos dirigir. Lemos notícias, estórias, bulas, mensagens, tudo o que os sinais gráficos permitem ser decifrados e decodificados, sejam em português ou em alguma língua estrangeira reconhecível, mas é a produção de sentido que nos faz entender o significado dos enunciados. Tudo é feito por causa do ato de pensar.

Na ideologia capitalista norte-americana de consumo, o ato de pensar controla toda a trajetória da ação humana. Empresários, propagandistas, psicólogos e economistas acionam o desenvolvimento de como o ser humano age e reage diante de estímulos. Eles pensam por nós! A associação de som e imagem encanta nossa mente, e a concretização do produto seduz o nosso pensamento. Não desejamos consumir, somos ludibriados a desejar possuir. Não precisamos de carro, somos levados ao sonho de se locomover. Não precisamos estocar, somos conduzidos à imprevisibilidade do caos, da escassez e da privação. Não precisamos poupar, somos fisgados pelo fascínio do lucro rápido. Não precisamos investir, somos direcionados à especulação dos bancos. Não precisamos dizimar, somos desafiados ao medo de sofrer o castigo divino. Não precisamos evangelizar, somos forçados a entender o resgate da criação somente através do envio de mensageiros. Não precisamos de Salvador, somos etnocêntricos pelo único caminho de redenção. Não precisamos nos procriar, somos mal-direcionados na compreensão da sexualidade. Não precisamos ser educados, somos eternos aprendizes no crescimento e desenvolvimento humano. Há, sim, outros que pensam por nós!

Passar um sinal vermelho é perigoso. Esta atitude nos qualifica como infrator, incorrendo, inclusive, na categoria de não ser bom motorista. Ir ao mercado e comprar só o que estava na lista é uma ação rara. Mas sair do padrão dos produtos sempre adquiridos é mais raro ainda! Transgredir é pensar por si. É sofrer as consequências de um ato soberano e autônomo: a liberdade de decidir e direcionar-se por si. É o único poder que temos e que podemos retomar a qualquer momento. Basta não permitir que outros pensem por nós.

Em Teoria Crítica, há o conceito e o estudo do pensamento crítico. Também chamado de autonomia, conscientização, liberdade, crítica, emancipação, politização, etc... Tantos termos para um único ato. Pensar por si é exercer o poder de ser autêntico. Será que somos produto dessa ação de pensar por si, ou somos o resultado do que o mundo da vida quer que sejamos? Somos cidadãos porque queremos ser ou porque nos induzem a ser?

Quero ser mais trágico. Separação é um evento que mexe com todas as estruturas do pensar. Os seres humanos conseguem se adaptar no movimento das separações, mas são inertes para pensar em se separar. Para muitos, separar é não tomar decisões, é deixar o barco correr para ver onde a maré vai parar. Somos nós que tomamos a decisão ou alguém que tomou por nós? Sou eu quem quero casar ou é a sociedade em que vivo que me força a isso? Afinal, como são conduzidos os atos do cogito humano, senão lidar com o ato de se libertar?

A resposta é a seguinte: pensar por si consiste em refletir sobre as causas e consequências da ação humana, tendo sempre a liberdade própria de concordar, aceitar, rejeitar e discordar das triviais assertividades. É, por exemplo, deixar de sofrer e passar a viver. É saber se conduzir quando o imprevisto surge, optando sempre pela vivência – a autonomia do ser.

Pensar por si é colocar o poder da criatividade em ação. Na aprendizagem, deixamos o estágio da imitação e começamos o da criação. Firmamo-nos em sólidos fundamentos de sustentação reflexivas – é quando o ser humano se torna um reflexivo de si mesmo. A criação é o ato de pensar sobre os problemas, resolvendo-os. É por isso que muitos seguem os líderes pentecostais e neopentecostais midiáticos: são incapazes de pensar por si.

Pensar por si é inovar sempre o tradicional. É ir além do conservadorismo, da ortodoxia e do zelo exacerbado. Rigorosidade nas estruturas é a prova de que não há inovação. Liturgias nunca serão arcaicas se forem atualizadas. Hinários nunca serão obsoletos se forem contemporaneizados... "o velho é o espaço para o novo surgir" (ECP). Ignorar o antigo é rejeitar o ato de fazer-se novo. O atual não existe sem o anterior, e o presente é a dinâmica refletida do passado.

Pensar por si é conscientizar-se do ato de revolução. É a ação transformadora do mundo. Não é a economia, nem a política e muito menos a administração que farão revolução na sociedade. É o ato de pensar por si que demonstrará o poder de cada criatura: corpo, alma e espírito em unidade para a reconstrução social. É o sentido da fé que move a incredulidade farisáica.

Pensar por si é identificar-se nos cogitos alheios. É pensar em comunidade, é associar-se aos avanços do grupo, cujos padrões foram o do consenso e o da verdade. Não são ações partidárias que definem a sociedade justa e solidária, mas o que cada criatura pensa por si e se agrupa para mover tais ideais em harmonia.

Os jogos de quebra-cabeça, lógica, passatempo, cálculos etc são exercícios do pensamento crítico. Leitura de poesias também. Não pense por imitação, pense por criação. Pense por si! É por isso que acredito em educação como um ato de pensar por si.

terça-feira, 26 de março de 2013

A coincidência das almas

Ó, figura humana do sorriso cativante,
Que me laçou com o feitiço reinante
Estou aqui a te desejar doravante
Desde ontem quando tocou-me radiante
Quero saber de ti e me dar a conhecer 
Em abraços e afagos até o anoitecer
Em suspiros de encantos no amanhecer
Mensagens para ti sempre hei de escrever
Que tal esperar a oportunidade do Soberano?
Afinal já fomos agraciados pelo encontro do ano
Ao esperar o ônibus para sentarmos no banco
Encostávamo-nos, sim, no trivial solavanco
A magia do desejo é assim: olhar, sentir e agir
Olhamo-nos porque não podíamos disso fugir 
Sentimo-nos estimulados, então, a prosseguir
Agimos discretamente no segredo de cair
Foi na liturgia do despir dos óculos que você me encantou
Vi nitidamente a beleza de ser convidado ao papo que soou
E na alma de nossas palavras, o diálogo mágico nos acordou
E estamos indo à luta para nos descobrir. O interesse despertou
A troca de nomes e telefones é um pequeno ritual 
Logo, logo, pode significar amizade comunal 
Se durar, há de ser mais que estudantil e fraternal
Haverá reciprocidade em revelar-se como casal
Compromisso é mais do que palavra ou um anel 
É sentimento, tipo o do bem e do amargo fel
Estou de pé no chão, ainda que você seja um céu 
Após os encontros necessários, doar-te-ei meu mel

Aula 1: Descrição


Olá, galera!

Seja bem vindo(a) à nossa primeira aula sobre como escrever poesia. 

Há várias teorias para dar início à "arte de escrever com a alma ou sobre a alma". Poderia indicar uma bibliografia muito grande sobre isso, mas vou ater-me à minha experiência como professor de Letras e como um intrometido a ser poeta.
Como também sou um estudante da Educação, vou associar a teoria do pensamento crítico (critical thinking theory) com a teoria da literatura (especificamente à poesia). 



Então, vamos fazer um aquecimento. Observe a figura ao lado. Se eu pedisse para você "descrever" essa imagem, certamente as palavras "passos" ou "pegadas" estariam em sua composição. 

É claro que, dependendo o "estado de espírito" do leitor, certamente haveria outras inserções, tais como: "solidão", "distância", "desafios", etc. 

A partir desse exercício, já é possível afirmar o seguinte: 


Escrever poesia é ser capaz de observar uma cena, uma situação ou um acontecimento para, posteriormente, descrevê-lo em diferentes perspectivas.

Isso acontece porque uma mesma imagem (ou situação) precisa ser observada em várias direções. Algumas chegam até ser quase parecidas. Veja essas duas cenas: 



Fotografei essas imagens em um dos meus invernos em Deerfield, Illinois, nos EUA. As fotos serviram apenas para dar-me a noção de aproximação e distanciamento. Quanto mais perto, maior é a capacidade de descrição. E, obviamente, quanto mais distante, menor é a capacitação. 

Mas se você achar que a descrição de quem está perto (aproximação) pode ser inferior à descrição de quem está longe (distanciamento), vou dizer que você também está correto! E isso se deve ao fato do processo "mental" (racional) do leitor-escritor de abstração. 

Portanto, duas habilidades cognitivas são essenciais ao poeta: 

(a) observador: 


Ler é observar.

Observar é ser capaz de ver o todo de uma determinada cena ou acontecimento e indicar as porções mais  significativas (relevantes) dessa mesma cena ou acontecimento.

Na poesia, a observação deve ser um hábito do leitor e do escritor. É preciso, inclusive exercitar essa habilidade. Para fazer isso, indico os seguintes exercícios:

- Observar a natureza

Passear no parque (praça), no lago, enfim em algum lugar em que flora e fauna sejam as pinturas do ambiente, etc.  

- Observar a cidade

Passear pelo calcadão ou mesmo a praça, o shopping center, as avenidas, os bares, as igrejas, enfim lugares em que a dinâmica do "movimento" seja relevante, etc. 

- Observar você mesmo

Passear dentro de si é um exercício de auto-conhecimento muito importante para o poeta. Muitas vezes é até terapêutico. Reserve um tempo para ti, de quinze minutos e procure entender como você é, reage, se comporta, etc.

b) fazer abstração

Pensar, meditar e refletir é fazer abstração. 

Ou seja, ser capaz de extrair a essência de um determinado objeto, evento, situação etc. 

Na poesia, fazemos abstração para entender os julgamentos éticos, os princípios morais, a compreensão estética (beleza). Refere-se ao que comumente, chamamos de axiologia. 

Para a abstração, penso que os exercícios a seguir sejam os mais indicados para quem almeja entender a descrição dos sentimentos:

- Leitura com sensibilidade

Leia uma reportagem qualquer sobre corrupção no meio político (não vai ser difícil encontrar, rsrsr). A primeira leitura, obviamente fará com que você "julgue" as atitudes dos parlamentares, tais como: prisão, cadeia, cassação, etc. No entanto, atente para sua reflexão sobre valores éticos e morais: honestidade, sinceridade, justiça, hombridade, caráter, etc ausentes pelos parlamentares. 

Agora, medite sobre a "possibilidade" de transformação ou redenção, um tipo de conversão desses maus políticos. Certamente, você terá que, "mentalmente", associar outros valores: escola, leitura, cursos, família, etc. 

Em diferentes situações, costumamos fazer julgamentos imediatos. Isso é natural, refere-se ao processo de defesa, chamado tecnicamente de "bias". Mas pode ser tão forte que, fatalmente, irá se transformar em preconceito - o poeta tem, sim, que opinar, mas não ser preconceituoso - senão a análise de abstração não foi realizada. Sendo assim, a leitura sempre tem que ser sensível. 

- Leitura com prós e contras

Vamos meditar sobre um fato social: o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Não importa a sua opinião, em primeiro momento. Atente, então, para os prós (a favor) de uma sociedade cujas relações são entre pessoas do mesmo sexo. E, em seguida, pense sobre os contras. 

A leitura com prós e contras não se refere a determinar vantagens e desvantagens, mas precaver-se de e entender acerca dos "sentimentos" revelados em ser a favor de uma determinada causa ou contra.

Agora medite, por exemplo, sobre o desmatamento, as queimadas, células troncos, etc. 

- Leitura compreensível e misericordiosa 

Parece que estou "pregando", mas, fique tranquilo(a). Trata-se de um tipo de leitura de confronto de "realidades". Por exemplo: minha mãe é analfabeta e nunca teve condições de entender o porquê de várias situações que acometiam a nossa família. Lembro-me de que ela literalmente "brigou" com uma professora na escola por causa de minha irmã caçula. O fato era que minha irmã não tinha feito a lição de casa. Então, a professora colocou-a para fora da sala, e escreveu, em seguida, um bilhete para minha mãe. Esse bilhete provocou um sentimento de ira em minha mãe. Como ela não tinha condições de entender o porquê da disciplina, a professora disse que não iria "fazer minha mãe entender o que significa educar uma filha". Com essas palavras, inflamou-se mais ainda a ira da minha mãe e ela ameaçou de "bater" na professora. A polícia foi chamada e aí o "barraco" estava feito. No final, eu apareci na escola e delegacia, como estudante de magistério, e a situação pode ser contornada. 

Na poesia, a leitura não deve ser "exclusivamente" dos fatos, mas exaurir-se também na compreensão deles como sendo uma atitude de misericórdia (compaixão). É colocar-se ao lado dos menores, dos que têm obstáculos na compreensão das partes para entender o todo. O poeta sempre se faz partidário das minorias. 

Pense e reflita, agora, sobre o seguinte assunto: a educação de analfabetos adultos, em cuja cognição a abstração (conceitos totalmente abstratos) são quase impossíveis de serem assimilados. Só uma leitura misericordiosa é que dá luz à alfabetização deles. 

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Vamos voltar ao tema da poesia como capacidade de descrição. As próximas figuras vão resumir o que quero dizer sobre a arte de descrever. 


Nesta cena, há árvores, prédios e rua. A linha do horizonte projeta o plano de observação e, ao centro, o ponto de foco ou plano de fundo. 

Na verdade é dali, do PF, que surgirão todas as direções para a análise. Isso damos o nome de perspectiva. Fazer poesia é adotar uma direção e escrever sobre ela. 

Olha só agora como ficaria a possibilidade de ver a mesma imagem em perspectivas diferentes. 


O ponto focal (centro) é o de origem. Na poesia, podemos assumir direções e, a partir desse foco, iremos descrever (dar detalhes) dessa perspectiva. Isso é fazer poesia, ou seja, detalhar uma direção a partir de uma cena, ou situação ou acoantecimento .




Então, descrever é apontar alguns detalhes de sua observação. 

Vejamos o seguinte poema de minha autoria. Acesse aqui.

Nele, descrevo o papel do cupido como alguém que peca constantemente, ou seja, erra o alvo. A direção que tomei foi a de fazer a leitura com sensibilidade, a de ser flecha. 

ATIVIDADES 

Exercício 1: Observar do todo para as partes

Observe esse vídeo que tem um comercial muito interessante. Você terá que identificar o maior número possível de "construção de cenários" (espaços, ambientes). 





Exercício 2: Descrevar detalhes das partes

Escolha três ambientes (cômodos) de sua casa que você mais gosta. Faça uma descrição deles usando apenas adjetivos (qualidades). Veja o exemplo que eu estou dando do quarto: 

Meu quarto 


Bagunçado 
Desalinhado
Desarrumado
Inabitável 


Aconchegável
Confortável
Silencioso
Limpo




Habitável
Inspirador
Seguro
Sagrado





Exercício 3: Abstração



Leia a estória abaixo: "Problema na Clamba"


Naquele dia, depois de plomar, fui ver drão o Zé queria ou não ir comigo à clamba. Pensei melhor grulhar-lhe. Mas na hora de grulhar a ficha vi-o passando com a golipesta – então me dei conta que ele já tinha outro programa. Então resolvi ir  tode. Até chegar na clamba, tudo bem. Estacionei o zulpinho bem nacinho, pus a chave no bolso e desci correndo para aproveitar ao chinta aquele sol gostoso e o mar pli suplante.

Não parecia haver um glapo na clamba. Tirei os grispes, pus a bangoula. Estava pli quieto ali que até me saltipou. Mas esqueci logo as saltipações no prazer de nadar no tode, inclusive tirei a bangoula para ficar mais a vontade. Não sei quanto tempo fiquei nadando, siltanto, corristando, até estopando no mar.

Foi no tode depois, na hora de voltar á clamba, que vi que nem os grispes nem a bangoula estavam mais onde eu tinha deixado.

O que fazer?????


SCOTT,Michael. 1981. Working Papers n. 1. 
Projeto Nacional de Ensino de Inglês em Universidades Brasileiras.

Há, sim, vários recursos para serem explorados neste texto. Um deles é a sua capacidade de dar novos sentidos às palavras desconhecidas, tais como:

plomar = trabalhar
drão = amigo, colega
clamba = praia 
e assim por diante...

Mas depois disso, há os exercícios de abstração que quero enfatizar. Para dar início, veja a primeira parte do parágrafo. 


Naquele dia, depois de plomar, fui ver drão o Zé queria ou não ir comigo à clamba.


Qual dos enunciados abaixo, você selecionaria para chegar a uma conclusão desse parágrafo:

a) Costuma-se ir à praia porque o cansaço do trabalho é demasiadamente prejudicial. 
b) A companhia de pessoas e a ida à praia proporcionam descanso à vida do trabalhador. 
c) Zé é qualquer amigo que aparece quando estamos sozinhos e cansados. 
É bem óbvio que você, vai ficar com a alternativa (B), pois a amizade é, sim, algo que pode proporcionar descanso... Só que essa companhia não vai existir no decorrer da narrativa, mas a ideia de descansar irá continuar. Então procure identificar os conceitos abstratos de cada percurso (partes do parágrafo com sentido) para treinar sua capacidade de identificar "níveis profundos" de comunicação. 

Você vai fazer várias abstrações: frustração, ansiedade, insegurança, etc desse texto. Após, essa identificação, tente "sintetizar" a narrativa escrevendo um poema no qual fique claro os conceitos que você identificou.

Por enquanto, abraços.

Até a próxima aula!

domingo, 24 de março de 2013

Sofrer com maturidade


Sofrer não é consequência de punição aferida 
Mas a reflexão de uma experiência aprendida
Decorrente de uma tremenda situação dolorida
Uma pode até ser física, outra somente sentida

Há vários mecanismos de aprendizagem
Na vida, é, sim, preciso, muita coragem
Enfrentar o sofrimento exige sondagem
A verdade é a amiga, sem malandragem

Sofro porque sinto


Que pena não ter dado certo entre nós!
Eu estava feliz, muito feliz. Sabia?
Com você, eu desatava os nós
Nunca perdia e nem cansava a voz
Ao teu lado, descansava quando dormia
Tinha espasmos de total alegria 
Por que, então, tenho que ficar só?
Vou morrer, sim, e virarei pó
Nem estátua serei como a de Ló
Desaparecerei em meio a correria
Pois eternizarei na nostalgia
Aterrado, precisaria de uma pá
A distância adia a ida para o além
E a saudade será o pecado de cá
Pois você continuará sendo alguém
Não tenho mais movimentos, estou sem pé
No leito de morte, só resta a fé
Não sofro pelo término da relação
Mas pelo inferno da dolorosa emoção

Pecar é errar o alvo


Não haverá próxima vez
Porque nem no último mês
Respeitou-se nenhuma das leis
Que moviam o amor que se fez

Cupido só para os romancistas
Em idílios de grandes novelistas
Em palcos de peritos artistas
Ludibriavam-me com falsas conquistas

Não quero ser flechado. Quero ser a flecha
Acertar o teu coração e abri-lo à brecha
Para só te desejar o bem e sair à festa
Mas você não quer mais nada. Beijo na testa

Não se deve atirar sem saber o alvo
É como querer mostrar-se no palco
Não tem repertório e se acha salvo
É até confiante, mas sem calço

Alma sedenta



Bebo água,
Mas não mata a sede
Apenas deságua
A mágoa na rede
E esgota.

Bebo água,
Mas não me alivia a fadiga
Apenas aumenta a torcida
Dos contras à minha vida
Desfalecida.

Bebo água,
Mas não me satisfaz
Apenas não tem mais gaz
Fazendo-me sentir fulgaz
Rapaz.

Bebo água
Para ser consciente
Apenas na mente
Imagino-te sorridente
E ardente.

Jardineiro sem canteiro


No meu jardim, cultivei um canteiro especial para ti. 
Adubei e preparei com todo carinho aquele pedaço de terra. 
Fiz dele um lugar sagrado: meditava e buscava inspiração 
para ser transcendente. 
Não economizei dinheiro, horas de trabalho e atenção.

Quando você chegou, apenas reguei e alimentei com meu amor. 

Cuidar de ti era a experiência mais gratificante de ser jardineiro. 
Minhas mãos e meus pensamentos se refaziam dia-a-dia ao te ver e tocar. 
Eu havia chegado à maturidade e ao regozigo de ser feliz. 
Agora eu seria eternamente teu.

Um dia você quis olhar para outro jardim. 

Disse-me que lá a grama é mais verde, o chão mais rico, 
o jardineiro mais formoso e as companhias mais desejáveis. 
Deixei você ir. Amar é nunca prender, sempre deixar a liberdade viva 
e presente para o encanto do reencontro.

Então decidi destruir meu jardim. 
Não queria me apaixonar mais. 

Destruir jardins não é acabar com o amor, é evitar as oportunidades de más intenções. 
Eu ainda te amo, e respeito tua escolha: esse novo jardim é tua fantasia. 
Só lamento que, após cada dia de distância, a velhice está se aproximando 
e possivelmente não haverá mais chão fecundo.

Hoje, sou eu quem preciso de cuidado. 

Preciso ser regado e adubado. Preciso de ti. 
Não deixei de ser jardineiro, deixei de cultivar o teu amor.


(Obs: Construído em prosa)

Passa-se o tempo


Contratempo é um aviso de uma vida agitada. Ele acontece justamente quando não se espera a perda de tempo. Em geral, não há paciência, não há compreensão e nem “simpatia” com a adversidade. O contratempo é um desastre: só técnicos da tragédia é que podem lidar com ele. Chegar atrasado a um encontro, por exemplo, pode significar a perda do contrato, do relacionamento e da fidelidade. A justificativa é um álibi para provar ao contratempo que a vida precisa de ações misericordiosas. Infelizmente, a sociedade não gosta de justificativas e nem de abonos. Há instituições que preferem agir com impiedade porque não querem compreender como a vida das pessoas está se encaixando nos padrões sociais. Diariamente queremos vencer o tempo, mas, na verdade, estamos vivendo contra o tempo. 

Uma doença é a mazela de que o tempo deixou de marcar o progresso da vida para iniciar a morte. Ninguém sobrevive à doença senão aderir firme à fé escatológica e esperar pela eternidade. A doença deixa de ser contratempo quando a nova vida ressurge em cada transcendência do próprio tempo. É a metáfora da fênix, da fertilidade, da essência, do espírito. Somos sementes da esperança lançadas no tempo para germinar e dar sentido ao mundo, a célula seminal de que a vida é eterna. O corpo sempre morrerá, mas a psichē viverá porque germinará no infinito do pensamento.

A idade é o marcador de tempo que não se recupera mais, ela é quem gerencia a longevidade e a brevidade dos acontecimentos. Mente-se a idade para dar alívio ou esconder os contratempos de viver mais ou menos. Quem se engrandece seguramente da idade que tem, assim o faz e confunde os anseios e desejos de quem não sabe entender a dinâmica do tempo. Por isso, há quem antecipe o sofrimento para dizer que a velhice é a aposentadoria de inconformados com a ausência de sentido para a vida.

A sexualidade não se refere à idade do sexo. Ela surgiu justamente do encontro dos sexos que fecundaram o ser da existência: eu, você, ele, ela, nós, vocês, eles e elas. A sexualidade se torna contratempo quando os “prós” são anulados, ou seja, os pró-nomes, as pró-vidas, as pró-atividades e as pró-idades. Talvez a rejeição dos “prós” não seja só discussão política, determinante do poder. Nem dos aglomerados sociais, referente às funções que se ocupam nos grupos. Muito menos dos discursos ideológicos, reinantes nas comunidades religiosas. E de longe será por embargos econômicos, baseando-se na relação de produção, comércio e trocas. Ela é contratempo porque se opõe à padronização de cada um destes já citados. É, sim, contratempo porque emergiu da solução que cada um encontrou para sobreviver. E, nesse sentido, a fé se torna libertadora quando dá sentido de inclusão à idade do sexo.

Há necessidade de gostar dos contratempos. Eles ajudam diariamente a refletir “além do tempo”. Dá-se sentido à busca de realizações, dá-se significado às libertações e dá-se responsabilidade aos agentes de transformação.

Mar da sabedoria


Cheguei às águas da praia. Molhei os pés e esperei salgar-me
Infelizmente não houve tempo suficiente para mudar-me
Vesti-me e só presenciei pelo olhar com a intenção de tocar-te
Mais uma vez acordei porque sonhar é voltar a ti e abraçar-te

Decidi pela segunda vez nadar. Pulei as ondas e abracei acima das marinas
Mergulhei por baixo dos sulcos o puxar da correnteza sentindo a sina
Puxei fôlego aos pulmões impulsionando-me para flutuar pelas narinas
Foi assim que me acalmei boiando em água sem agitação - expressão ladina

Olhei o firmamento e vi as nuvens se formando como mensagem a decifrar
Era o de um mundo de paz, de justiça e de amor fraterno e singular
Pássaros voavam em círculo como um grande rei majestoso a coroar
Era a Terra-Mãe, rainha e senhora, abençoada e dando vida a celebrar

Um surfista pára ao meu lado e pergunta sobre o porquê de me ausentar
Disse-lhe que precisava entender a dinâmica das necessidades a manusear
E também que neste mundo há grupos que, sem educação, não há como lidar
Se uns fazem, dez mais destróem - levando-o a entender que é preciso cooperar

Foi-se embora. Aproximou-se os sábios golfinhos cujas experiências são de alegrar
Contaram-me liturgicamente todos os segredos para este mundo transformar
Hoje tenho as sementes da mudança e estou pronto para fazê-las germinar
Por isso, hei de constranger e chocar alguns, mas sempre pelo amar

Voltei à praia e encontrei-me com meu grupo, minha communitás a congregar
Profetizei-lhes sobre a vocação de discipular, foi a deixa para fomentar
Entre todos o poder dvino, cheio de entendimento que haveria de se manifestar
E cada um sentiu-se animado porque tornaram súditos do Espírito que veio reinar

Doce ilusão


O silêncio é verdade quando se é autêntico
Sai do anonimato e torna-se adulto de fato
Arde como arsênico, cuja lealdade faz-se idêntico
Ato nato que revela-se em culto relato 

Há algo em ti que me atrai, olhar único e sedutor
Por isso não procuro o que me distrai, senso pudico e sem frescor 
Você tem o que quero e bem aí, é arisco e cheio de ardor
Em trajes simples na Sapucaí, sem atrito faz-me teu mentor

Na praia deserta, tua companhia foi passageira
Eu fui o teu prometido, ausência da domingueira
As ondas batendo em ti, revelaram tua tez fogueteira
Na areia, descansei em ti minha marola derradeira

Em minhas tristezas é a tua imagem que me consola
Passado não é saudade, mas vestimenta e estola
Sacralizando nossa outrora união, a dois ela foi a “cola”
Dos conteúdos e fluidos dizendo adeus em boa hora

Os passeios escondiam horas e tardes inesquecíveis
Em devaneios, conseguia relaxar dos descansos inexprimíveis
Mas agora sozinho, sofro os traumas dos sonhos inexequíveis
Você é a doce ilusão, a religião dos amores invisíveis

Essa peça branca é demais imagética
Sempre seduzi-me por inteiro sem ética
A terceira intromissão veio a mim colérica
Quando rever-te, terei atitude homérica

Teologia urbana (cidades)

Essa série é sobre o estudo da cidade relacionada à missão da igreja. Apreciem. 

1. Igreja como agência prestadora de serviço.



2. Ministério diaconal



3. Programas da igreja oferecidos para a cidade



4. Programas musicais feitos pelas igrejas para a cidade.



5. Calendário litúrgico integrado à agenda cultural da cidade. 



6. Ações estratégicas de cidadania como testemunho.



7. Litanias e pastorais nas liturgias da igreja com conteúdos à cidadania.



8. Os campos missionários da cidade.



9. Cidadania e desafios sociais contemporâneos. 



10. Tráfico de drogas e criminalidade eliminam a vida humana nas cidades. 



11. Política como campo missionário da cidade. 



12. Campos missionários da cidade e espiritualidade.



13. Pregação inclusiva. 



14. A cidade é minha paróquia. 



15. Líderes midiáticos 



16. Teologia da prosperidade.



17. Líderes ditadores e o desafio da evangelização das cidades. 



18. Pescar no aquário dos outros como estratégia de crescimento. 



19. Deus fala às igrejas para o anúncio dele às cidades. 



20. Presença profética da igreja na cidade.