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domingo, 19 de setembro de 2021

Teologia, suicídio e pastoral

 


Assim como todo tema abstrato é subjetivo, a dor de uma pessoa também é. Não há como mensurá-la senão pelas evidências demonstradas dia a dia. Cada experiência de sofrimento se torna uma evolução da acedia, do desespero e da angústia. Há indivíduo que enxerga a morte como a solução para os problemas. E ela não deve ser considerada uma pessoa medrosa e sem coragem. Na verdade, esta pessoa não aprendeu a sentir a eficácia da esperança para a continuação da vida, nem tampouco entendeu o sentido da promessa da vida eterna – mais subjetivo que isto só ignorando a própria fé no Salvador! (1 Tessalonicenses 1:8-10). Neste sentido, a fé continua sendo o consciente imaginário da redenção e da cura de tudo, enquanto o abraço, o beijo e a mão estendida são representações da humanidade viva (Salmo 133).

Pessoas desejam a morte porque foram acometidas por doenças, por rejeição, por descontroles emocionais e financeiros, por fracassos profissionais, por enfraquecimento e perdas de relacionamentos, por luto e por terapias paliativas a pacientes terminais, por incompreensões das convenções sociais e por estigmas marginalizantes, por cores de pele, etnias e raças, por ideologias políticas, econômicas e religiosas, por lendas e mitos, por nomes e instituições, por mentira e fraudes, por ignorância e poder, por cargos e salários, por engano e traição, por sexo e dinheiro, por deuses e magias, por casados e solteiros, por preços e frivolidades, por discriminação, ira e ódio, por mais armamento e assassinatos, por destruição e desvalorização da vida humana, enfim pela finitude do ser. Pessoas preferem a morte porque o encanto da vida deixou de ser romance, encanto, doçura e prazer. O maior milagre a ser proclamado na sociedade atualmente seria o do chamado dos deprimidos e dos angustiados, a fim de que todos eles(as) “levantem-se, aprumem-se” para a missão da vida. E assim como Jesus disse ao enfermo: “Levanta-te, toma o teu leito, e anda” (João 5:8, versão Bíblia ACF Online), a sociedade anseia que a igreja tenha estas palavras de ânimo e motivação para os que sofrem de dores da alma veem na proposta da vida a busca pela felicidade.

O verbo levantar-se (do grego egeirō) é o mesmo utilizado no contexto da ressurreição. Há vários contextos linguísticos que este verbo pode ser aplicado. A princípio, tem a ideia de estimular alguém a sair de uma situação de inércia e vir para uma outra situação, a de movimento. Podendo representar, por exemplo, o despertamento para uma nova tarefa ou desafio a ser superado. Neste sentido, qualquer ação de levantar-se, despertar-se, significa sair da inatividade e entrar para a atividade, sair da ruína e vir à construção, sair da inexistência para a existência, sair do sono e despertar-se para o trabalho, desistir da doença e degustar da cura, ausentar-se da obscuridade e aproximar-se da transparência, entre outros. Em contextos de aconselhamento, discipulado, orientação pastoral e fortalecimento de vínculos com deprimidos e angustiados, as terapias recomendadas devem ser administradas com base na teologia da ressurreição. Assim sendo, exige-se do(a) pastor(a) o conhecimento das patologias e o discernimento acerca dos que atentam contra a própria vida, a fim de que o ministério seja o de recuperação e o de restauração de vidas. Por isto, e. g., a ministração da oração só será válida à luz da compreensão de que ela [a oração] seja dialógica, isto é, mais mitológica do que ritualística, mais expressiva do que simbólica, mais narrativa do que paliativa, mais farmacológica do que hipocondríaca. A teologia fornece sim ferramentas contra a angústia, a depressão e o suicídio. Mas é preciso dominá-las exemplarmente. Para os que sofrem do atentado à própria vida, a teologia não é uma ciência do “achismo”, nem dos magos e dos sindicalistas da fé. Antes, ela pontua a fé como ação terapêutica para a redenção integral do ser humano.

Os analíticos policiam a eutanásia porque buscam diagnósticos clínicos e racionais, porquanto os continentais vigiam o suicídio como decadência da sociedade moderna. E, nas comunidades cristãs, os clérigos condenam a auto interrupção biológica como pecado sem perdão. A princípio, tal discurso não deveria ser ignorado, mas aplaudido. Todavia, a longo prazo, esta mensagem é acusadora e não produz efeito de acolhimento e redenção. E aqui há uma reflexão bíblica e teológica: ora, então Cristo não morreu pelos que atentaram contra a própria vida! Chamem os exegetas e os hermeneutas: (1) acaso Sansão não postula uma história heroica sobre os filisteus por meio do suicídio? (Juízes 16); (2) acaso não há equívocos nos dois relatos da morte do rei Saul; afinal, ele cometeu suicídio ou foi morto? (1 Samuel 31 e 2 Samuel 1); e (3) Como interpretar o suicídio de Judas Iscariotes? (Mateus 27:5). E, voltando agora para os leigos, sabe-se que eles supervalorizam a espiritualidade do Alto, ou seja, dos que subiram o monte e foram ver os gravetos pegarem fogo e, ao mesmo tempo, eles menosprezam os que praticam as ações da Terra, porque são mais ativos diante da necessidade e do sofrimento humano. Assim sendo, pergunta-se: somos mais partidários ao clero do que ao laicato? Somos mais acadêmicos do que os membros das igrejas? Somos mais teólogos da ressurreição do que os teólogos da crucificação? Afinal, diante da realidade do suicídio, qual é a ação ministerial da igreja cristã?

O setembro é amarelo sim, mas só existe para a conscientização. Esta ação deveria ser uma constante missional, isto é, “para todo o sempre”. A pastoral não é para ser ostensiva aos que já tiraram a vida. Antes, ela tem que ser preventiva e atuante aos detalhes que tornam a pessoa vulnerável ao sofrimento. Há diferenças gritantes em um anúncio contra o pecado e um chamado à graça de Cristo a favor do(a) pecador(a). A parênese sobre as consequências do erro, vitupério, vilipêndio e falha, realizada inconsciente e irresponsavelmente por líderes cristãos, pode afetar o(a) indivíduo [em sua individualidade] e torná-lo(la) frágil, vulnerável e desorientado(a). A pregação contra o pecado tem afetado o(a) pecador(a), a ponto dele(a) sentir-se a causa do pecado. E, uma vez vitimado(a) pela prova do pecado em si, a dor do pecado finaliza-se na morte do(a) pecador(a) – eis aqui o porquê da “igreja cristã” acusar os que se opõem ao discurso do pecado para gerar o discurso da santidade. Tenhamos em mente o fenômeno dos estigmatas (do grego stigmata, as marcas de Cristo) da Idade Medieval, com as quais o(a) pecador(a) “curtia” as cicatrizes no corpo e que testemunhavam acerca de sua fidelidade e experiência com a fé em Cristo. Na verdade, tais “espiritualidades” mascaravam as epilepsias, os transtornos mentais e até mesmo as anorexias, as convulsões nervosas e a auto-mutilação. Assim sendo, o que dizer acerca do crescente número de pastores que cometeram suicídio? Acaso seria impensável uma tanatopraxiologia em ambientes exclusivamente cristãos? A resposta é: “sim, é inviável e impensável”. Assim sendo, a missão é a favor da vida, é a favor dos detalhes que tornam a vida mais feliz, prazerosa e frutífera. Na medida em que a felicidade ganha força e age em prol da vida humana, o desespero, a angústia e a melancolia são enfraquecidos e se tornam inócuos na sociedade. Até aqui, a profecia cristã já foi dita: o suicídio é como fermento; ele leveda, cresce, é invisível e silencioso.

O pecado sempre será um mistério, mas a vida do(a) pecador(a) continuará sendo uma constante descoberta. A igreja cristã não deveria escandalizar-se com o pecado dos membros. Antes, ela deveria oferecer os ministérios de descobertas sobre a vida das pessoas que creram em Cristo (II Coríntios 5:17). É interessante observar quando vamos à seção de bebidas em um supermercado. Ali, há muitos sabores [e fragrâncias]. Nos EUA (2003-2004, lembro-me de experimentar uma cerveja com mel (Honey Porter da Samuel Adams), uma com banana (Banana Bread Beer da Wells) e uma com perfume (Dragon’s Milk da New Holland Brewing). Odiei todas, mas sabia que lá havia diversidade! A fé é em Cristo também promove dinâmicas de descobertas: para uns a fé é a cura do câncer; para outros, ela é a aprovação do(a) filho(a) no vestibular; talvez alguns pensem a fé em Cristo como sendo a fidelidade à participação dos cultos e eventos da igreja; e talvez para outros, a fé no Salvador é como uma competição consigo mesmo: quando mais fiel à igreja, maiores são as [minhas] chances de obter a ‘identidade cristã’. Todavia, a tendência é padronizar as experiências da fé em Cristo: “aqui fala-se em línguas”, “aqui você tem revelação”; “aqui você expulsa o demônio”; “aqui você fala com Deus”; “aqui, você é santo!”. De fato, os discursos existem, mas não são para as descobertas de si e do encontro com Deus. São para indicar os limites de atuação da liderança da igreja. Cada convertido(a) é uma vida que se descobriu em Cristo e não há, na mesma comunidade, uma descoberta idêntica e vivenciada por outro. Mas ao condenar estereótipos e biótipos, as comunidades cristãs podem dificultar a aproximação de pessoas que desejam buscar o sentido da vida. A igreja cristã é um lugar de bênção e promoção da vida, ela foi chamada para ser a congregação dos pecadores justificados, dos pecadores santificados e dos pecadores lavados [purificados] (1 Coríntios 6:1-11).

Uma das excelentes ferramentas contra o angustiado e deprimido é quando ele(a) encontra nas igrejas cristãs o espaço para o acolhimento, a escuta e a confissão. Portanto, não importa a denominação nem tampouco o estilo litúrgico e doutrinário da comunidade. Importa sim que ela tenha ações de atendimentos às pessoas. São nos momentos de acolhimento e de escuta que as pessoas criam laços de confiança, credibilidade e confidencialidade; e lá acabam fortalecendo as diretrizes de reconstrução de suas vidas. Excetuando os casos de gravidade jurídico-criminal, nenhum caso é excludente do atendimento por comunidades cristãs. Cada comunidade cristã deve ter a ciência de que ela é um sinal do reino de Deus, portanto uma agência do serviço de resgate da criação. Neste momento, a liderança perceberá se os ministérios existentes atuam a partir da abordagem do acolhimento e escuta ou se são artifícios de promoção do stato quo religioso. Haverá sim momentos em que a própria comunidade precisará requisitar ajuda mais elaborada, a dos profissionais. Entenda isto: o trabalho pastoral atua na prática de aconselhamento como orientação e fortalecimento de vínculos em perspectiva religiosa, isto é, a de religar a criatura ao Criador; o psicólogo atua na prática de terapias conversacionais, por meio de diagnóstico, prevenção e tratamento de distúrbios mentais, emocionais e de personalidade, com vistas ao auxílio da estabilidade psicológica do paciente; o psiquiatra atua na prática de diagnóstico, prevenção e tratamento das pessoas que sofrem distúrbios de doenças mentais, decorrentes ou não de ansiedade, depressão e dependência química; o assistente social é o profissional que viabiliza os direitos sociais chegarem até os necessitados, por meio de acesso às políticas públicas (saúde, educação, saneamento etc.). Nenhuma ação pastoral é única e definitiva sobre a luta contra o suicídio, ela é um tijolinho na construção do edifício (1 Coríntios 3).

Outra ferramenta é o da comunhão. Ou melhor, dos espaços e momentos da relação de sororidade (entre irmãs) e fraternidade (entre irmãos), a partir dos quais o(a) indivíduo é conectado pelo sentido da eclésia: uma organização de pessoas vivas, unidas umas às outras pela fé em Cristo e pelo batismo do Espírito Santo. Comumente, chamamos de apoio familiar, ou ainda, de membros da família da fé. De fato, a comunhão é o maior empreendimento da igreja cristã no mundo, pois fornece os fios da teia que constantemente é tecida para atar as conexões em rede em prol de vidas. O(a) indivíduo angustiado e deprimido precisa sentir-se querido pela igreja, isto é, que ele(a) pertence à comunidade.

Uma terceira ferramenta estaria focada no(a) próprio(a) indivíduo. Ou seja, torná-lo(a) ciente de que a vida dele(a) é um culto dedicado a Deus. Sim, a vida humana é constante louvor e adoração a Deus – por isto a vida tem centralidade no papel de resgate e redenção de todos os povos (etnias). Neste momento, o(a) pastor(a) é ponto chave para religar a pessoa a Deus, inclusive reforçando o argumento de que o amor divino (graça) está no contexto do culto a ser oferecido (gratidão). Portanto, as liturgias são excelentes oportunidades de tornar os cultos como práticas de inserção, participação, libertação e compromisso.

Há muitas outras ferramentas. Todas são destinadas para o exercício da missão da igreja no mundo. Hoje, estamos cooperando com a conscientização acerca da prevenção contra o suicídio; e concordamos sobre o papel da igreja cristã no mundo, isto é, ela está no caminho e tem contribuído para o resgate de vidas.

Pela vida em Cristo, vivamos todos!

sábado, 12 de janeiro de 2019

Discernir o caos como gerador da nova ordem



Esta reflexão é iniciada com um axioma máximo: “as quimeras em ambiente religioso é resultado das mitomanias absurdas ou ainda das utopias divergentes”, decorrentes de outros segmentos sociais ou não. Afinal, o brasileiro vive momentos de indecisão, ignorância e extremismos. Todavia, reforça-se sempre em momentos de crise que são a coerência, a sabedoria e a tolerância que devem imperar nos embates dialógicos. Não haverá paz nos poderes democráticos se tais posturas não forem o princípio do convívio entre pessoas, instituições e poderes. A sociedade sempre deverás ser definida pela sua essência e decisão para o bem comum, para a coletividade e para os processos de inclusão, harmonia e respeitabilidade. E com ousadia, é possível dizer que no meio do povo de Deus, tal testemunho não é uma realidade.

A referência aqui não é à liberdade de expressão e opinião, nem tampouco à opção política. Fala-se do direito e da liberdade de viver em comunidade. A fé pode até ser individual, mas é no coletivo que ela se concretiza. A inserção de pessoas no Corpo de Cristo é um ato único e exclusivamente do Espírito de Deus. Obter o título de membro da igreja só é válido quando tal membresia configura-se na apropriação de serviços, compromissos e trabalho para o benefício de todos. Afinal, o ‘membro’ é parte integrante do corpo. Separado, ele não serve para nada. Neste sentido, ser membro de uma comunidade religiosa não é só pertencer à denominação, à organização religiosa (e muito menos à referência de um partido político). Significa sim aderir à fé que o consagra como membro de um organismo essencialmente espiritual. Não somos membros por adesão, mas pela expressão da fé que professamos.

Deve-se desejar ser membro de uma comunidade que concentra em si todos aqueles que amam o bem, odeiam o mal, que se aproximam sempre da verdade e se distanciam da mentira, que aspiram a decência e a ordem e expiram a incoerência e a demência, enfim, todos aqueles que se transformam diariamente em pessoas amáveis e dóceis e rejeitam os engodos da prática de espiritualidade alienada. Sim, existe uma comunidade na qual há praticantes de outras grandes religiões, tais como muçulmanos, judeus, budistas, xintoístas e bahai’s; e também de dissidentes do próprio cristianismo, como os espíritas, as testemunhas de Jeová, os da ciência cristã e os rosacrucianistas; e também outros espiritualistas, como os da mitologia nórdica, os do teísmo aberto, os messiânicos, entre outros. Deve-se aprender isto, pois viver em comunidade significa expressar o direito e a liberdade da fé que se tem. A fé só é compreendida como respeito porque a liberdade e o direito de viver em comunidade também são compreendidos.

E, seguindo este direcionamento, o fato de alguém ter adotado Cristo e as Escrituras como hermenêutica das demandas sociais de governo, cidadania, construção de vida e compromissos sociais não significa que tal pessoa desrespeite o outro, ou até mesmo que o outro o desrespeita. Não se posso adotar a teologia do extermínio só porque o outro é diferente (ou eu que seja diferente para ele). A teologia defendida aqui e que se faz uso é sim a que disponibiliza o viver em comunidade, respeitando as diferenças e usufruindo da liberdade e direito que se tem. É uma teologia que dimensiona a convivência com os demais, através dos olhos da fé. Por isto, cada um de nós deve tentar traçar a espiritualidade a partir da sua própria humanidade, transformada pela realidade da fé na convivência com pessoas. Este é o verdadeiro efeito da ação pneumatológica na vida humana: a produção da paz do Espírito e a manifestação do fruto do Espírito. Como humanos, precisamos aprender a interpretar a fé geradora da comunidade, e não o caos que ela provoca.

Hoje, viver em solo brasileiro tem sido mais um desafio da empregabilidade da fé do que propriamente das esperanças políticas. Não há e nunca haverá esperança em projeto político – a esperança tem que ser na fé que todo cidadão tem em si, mas que seja conduzida pela diretriz do benefício ao próximo. As verdadeiras promessas são aquelas que emergem do espírito messiânico, capaz de direcionar o povo à restauração integral. Já as promessas políticas estão fundamentadas na defesa de grandes grupos economicamente “poderosos”. E, possivelmente, nenhum de nós consegue pensar alguém sendo conduzido à restauração, através do argumento de que o porte de armas trará segurança. A maioria do povo tem o discurso pertencente ao grupo dos economicamente “fracos”. Neste sentido, os programas políticos de recuperação do Brasil não é e nunca será fundamentado na fé do povo, mas nos interesses de alguns “do povo”. Considera-se aqui o conceito da fé comunitária ou coletiva, isto é, chegou a hora de entender o povo brasileiro como a grande comunidade da fé: revolucionária, libertária, acolhedora e cuidadora, inclusiva e guardiã da vida. Há, portanto, mais povo de Deus fora das eclésias! A fé das comunidades cristãs já foi anunciada por quase mais de 500 anos em solo brasileiro e, durante toda esta jornada, ela alcançou outros arraiais. Sim, hoje é preciso reler a fé do povo, a fim de que tais comunidades entendam o que havia sido há mais de quinhentos anos.

Então, o fiel é chamado a ser cidadão do reino! E o seu líder fora eternamente eleito como Salvador, cujo destino é religar a criatura com o Criador. Logo, a igreja transparece a política quando ela realmente defende os direitos para “os habitantes da pólis”. A semântica da política projeta o cidadão a comportar-se como habitante do seu espaço de experiência e vivência, a cidade. Consequentemente, a igreja, conhecedora da política do reino, deve projetá-la para toda a criação de Deus. Não existe reino de Deus apenas na “sala do trono”. Afinal, o comando do rei, decretado na sala do trono, precisa ecoar e chegar até à extensão de todo o seu reinado. Afinal, o Supremo Rei é movido integralmente pela fé do seu povo.

E por que isto não acontece? É porque o alinhamento das propostas partidárias relacionadas às práticas e discursos de seus representantes não coadunam com as do reino. O brasileiro vive a tragédia dos vencedores pelo poder de governar: os ignorantes da fé. Tais líderes são incapazes de discernir o caos, muito menos a competência de conduzir o povo para a nova ordem. Na verdade, eles são os mágicos do espetáculo político, só que utilizam efeitos cinematográficos. E, como não têm habilidades e nem experiência de governabilidade, adotam discursos imaginários cujas metáforas são resultados da irracionalidade promovida por dois esquilos animados, o Tico e o Teco. Um deles, o Teco, adotou o estilo executivo despojado, cuja linguagem é difícil de ser compreendida, agressivo e gosta muito de intimidar as pessoas. O outro, o Tico, é legalista, ardiloso, vingativo e extremamente peçonhento. Mas ambos têm carisma: o sucesso deles deve-se ao fato de encararem o povo como o Pato Donald, do Walt Disney. Mas há um Donald, que não é pato e também não sabe dialogar. E como há o maior de todos que não sabe governar, o Brasil resolveu também imitar o primeiro mundo. Afinal, a fé deles é melhor. Lá, Deus salva, enquanto aqui Ele é acima de todos. O caos já chegou. E quando o povo estiver na grande tribulação, será preciso discernir a nova ordem.

domingo, 18 de março de 2018

O fôlego da vida




Lembro-me de uma propaganda de creme dental, cuja ênfase cinematográfica era a de demonstrar pessoas sorridentes, ou melhor, extravasando suas arcadas dentárias, e pronunciando a famosa interjeição “Ah” com frescor, suavidade, alento e, bem mais acentuado, de existência.
Obviamente não irei falar da marca deste produto. Quero sim trazer à memória o slogan que o produto divulgava, isto é, ‘de bem com a vida’. A preservação da vida continua sendo o maior investimento da humanidade. Nenhum interesse deve ser superior àquele que protege ou mantém a vida, desde a anterior concepção até o vindouro tempo aiônico (eterno). A vida é a marca que precisa ser divulgada, seja nas relações da humanidade, da natureza e dos universos como também das angústias, dos medos, das doenças e da morte. Se há a identificação do fôlego, então o espírito vivente se manifesta, metamorfoseando-se em ar, luz, som, unidades conjuntivas complexidades integralizadas e as plēreumas organizadas. Cada ser humano é em si a divulgação do produto vida.
A vida é o maior produto do desejo do Absconditus, cujo resultado é vir à existência. E, sendo a manifestação do hálito divino, ela não pode ser negociada. Não há dinheiro que compre a vida, mas certamente há preços que patrocinam a morte! A fé, por exemplo, é a divulgação que a Vida tem feito em toda a história da criação. Ela é o ato profuso da salvação eterna sendo conquistado. E, neste sentido, há os que diariamente morrem porque se negam a aceitar o mistério da vida que emerge da fé. Quem vende a fé ou faz uso indevido dela criminaliza a missão dos viventes e rejeita a possibilidade da redenção integral. Por esta razão, Deus jamais é ou será negociado, pois ele é abundante vida aos que creem.
Ao nascer, a criança é expelida para fora e, mediante alguns ritos de inicialização fisiológica muscular involuntária e independente, o líquido dos seus pulmões é expulso, causando-lha fortes dores no aparelho respiratório e ocasionando sofrimento. Ao chorar, interpreta-se que ela ‘nasceu’, ou melhor, chegou ao mundo. Contudo, esta mesma explicação também foi divulgada em ampla literatura bíblica, pois “Então Javé Deus modelou o homem com a argila do solo, soprou-lhe nas narinas o sopro de vida, e o homem tornou-se um ser vivente” (Bíblia Edição Pastoral, Gênesis 2:7). Nesta narrativa não é dito sobre o choro da humanidade (Adão e Eva), mas menciona sobre o ‘fôlego/sopro de vida’ – isto é, o choro ao nascer é a sonoplastia da propaganda da vida.
Para os semitas, o ato de respirar, então, significou receber o Rua´ Yahweh (Espírito de Deus) e ‘chorar’ é a confirmação de que nascer significa viver a vida. E para os ocidentais, o Pneuma tou Theou (Hálito/Vento/Espírito de Deus) é a capacidade divinamente recebida de compreender e fielmente cumprir a missão do resgate da vida. Portanto, o fôlego da vida é um dom missionário divino dado a cada ser existente. E esta existência para a vida pode ser mensurada pelas expressões do pensar, sentir, falar, criar, aprender, pertencer e amar. A vida impõe-nos a exigência da linguagem, da afetividade e da perpetualidade. O futuro é imortal porque sempre havemos existir. O presente é possível porque somos “o um para o outro”. E, finalmente, o passado é aceitável porque sabemos interpretar como foi a experiência da vida. Mais uma vez, a experiência da criação resulta sim na apropriação de respirar a fé.
Minha argumentação é apresentar a existência humana como uma grande sala de aula, cujo conteúdo é o ensino e o aprendizado sobre como respirar a fé. Não se trata de exercícios aeróbicos ou da avaliação de capacidade pulmonar. Nem tampouco a correção dos ruptos noturnos ou dos odores socialmente desagradáveis. Trata-se da assimilação extática e extraordinária do fôlego que nos dá a consciência de existência como resultado da benevolência e da soberania divina. E, mais ainda, diz respeito à adesão dos mandatos sobrenaturais da própria fé, ou seja, comprometer-se responsavelmente com todas as ações proativas à preservação e manutenção da vida. É mais que um estudo filosófico, teológico e biológico. Refere-se à dinâmica de que este conteúdo está gratuitamente disponível para todos os entes a tornarem-se verdadeiramente os aspirantes da fé. Ao respirar, cada um enche-se do Espírito de Deus e expira as ações que hão de transformar radical e socialmente os promotores da morte! Há sim muitos que aprenderam parte deste currículo, ou seja, sabem perfeitamente apropriar-se dos mandatos divinos, mas são incapazes de exalar serviços terapêuticos da vida. Por isto, a morte também chega para os denominados ‘possuídos de Deus’. A respiração da fé sempre é mão de duas vias. Enche-se de todas as virtudes e conhecimento da vontade de Deus, e esvazia-se através de ministérios redentores da criação.
Em contrapartida, a noção de que iremos deixar de existir é ontológica, cada um de nós é consciente da finitude. Faz parte da vida a sensação da súbita interrupção orgânica. Por isto o sofrimento pela vida é perene – e é errado abreviar esta demanda. Pois, o fôlego é o frescor do sorriso dado pela Vida em cada manhã, é a fricção bilabial dos amantes em constantes trocas de fluídos, é a descarga dos espasmos de si dentro do outro, é o êxtase da viagem sem combustível e condução, é a concretização do já e ainda não. A vida sempre é um presente porque ajuda-nos a superar a proximidade da partida.
A baixa autoestima é o terceiro indicativo de que há doentes da fé, seguido pela indiferença com a ecologia. Mas é a violência com o próximo que julgo ser o terceiro indicador da morte. É claro que o tema do amor divide-se entre esses três. O amor a si mesmo preconiza a auto aceitação, estimula a vivência baseada em cuidados, desenvolvimento psicossocial e maturidade existencial. É a resiliência de viver o sofrimento de si. E o que dizer a respeito do amor ao meio ambiente? Afinal, precisamos de água, oxigênio, plantas, animais, enfim precisamos da Natureza. Não significa ser animistas, mas sim entender a “ânima” (animus) dos elementos da criação. Significa ainda relacionar-se a ponto de compreender a extensão de cada um deles em nós! Cada ato contra a natureza é uma violência à vida. Neste sentido, devemos ser educados para “habitar a casa” (oikos, ecos = casa). Já o amor ao próximo exige o entendimento acerca do encontro da metade que há de tornar-se juntamente o inteiro. Cada um torna-se o todo ao existir para o outro. É o amor fraternal, o da relação de pessoas, o do convívio entre seres, o da harmonia de amar “as carnes”, “é o pastor que conhece as ovelhas pelo nome, pelo cheiro”. É “o ajuntamento de pessoas em constantes movimentos” (L. Wirth).
Para finalizar, julgo o entendimento acerca do fôlego da vida como sendo a dinâmica da espiritualidade humana. Ou seja, a espiritualidade é o resultado de como cada um se coloca disponível para entender sobre a ação do Espírito de Deus em si. É também a resposta a esta entendimento, que corresponde geralmente ao compromisso de ser um agente promotor da ação deste Espírito. Em palavras mais simples, amar a si, a natureza e o próximo significa responder à respiração da fé. A integridade e a fidelidade à respiração da fé divulgam a espiritualidade dos comprometidos com o slogan da vida. Eles são conscientes do “Ah! De bem com a vida”.


domingo, 30 de julho de 2017

A reconquista


CAPÍTULO 1

A noite foi razoável. Poderia ter sido pior, se não fosse a ausência de vagas para estacionar. Dialogar com o carro em movimento é o mesmo que espaçar a conversa em monotons que distanciam o sentido e o significado das palavras. Balbuciar e grulhar são como adolescentes que, constantemente, usam gírias porque querem se perder no mundo das verbalizações. Seja como for, noite, manhã ou tarde, tudo fica a desejar se não há harmonia nas ações. Não adianta executar o sonho se as ricas oportunidades são imperfeitas.

Tentei ao máximo explicar o porquê deste encontro. Todavia, havia os impasses de ser mal interpretado em alguma colocação. Finalmente, uma vaga. Em frente aos inconvenientes entra-e-sai do portão do grande condomínio residencial. A versatilidade seria passear pelo quarteirão e sujeitar-se ao sereno, mas tudo bem: concordamos ser breve no assunto sobre a aproximação. Eu sempre acreditei no diálogo, mas naquele momento, parecia um monólogo: eu falava e eu mesmo escutava. É estranho falar consigo mesmo, mas é assim que acontece na experiência da reconquista: conversar comigo significou dar início à terapia da compreensão da vida.

Neste ínterim, passa a vizinha, D. Enxsha, uma russa que aprendeu a viver no Brasil, dizendo:

-- "Oi, Bryan. Por que não compra uma moto. É mais barato. Aí, você poderá colocar uma etiqueta no pescoço e dizer o seu preço. Até eu iria me candidatar" - falava ela com sotaque mais parecendo uma alemã, embora odiava que a chamasse de outra nacionalidade. Ela sempre insinuava-se fogosamente para mim. Até dizia-me que eu deveria tentar a carreira de ator pornográfico. 

-- "Que nada, Dona Enxsha! Não gosto de moto, porque já cai" - e é verdade (pensava comigo), pois esta máquina já me deu uma clavícula deslocada. "Pode deixar que vou pensar neste assunto. Mas se eu comprar uma, vou pedir ao meu amigo solteiro que leve a senhora para dar uma volta” - acenei dizendo um adeus e continuei minha conversa no carro. Ela gostava de mim, mas eu não suportava o cheiro de cigarro dela. A cada palavra enunciada, parecia uma bomba expelida de nicotina. E fiquei preocupado porque ela era conhecida como o leva-e-traz dos acontecimentos no condomínio. Enfim, todas as culturas têm semelhança, e até os russos são fofoqueiros.

Começou a chover forte. Relâmpagos e trovões anunciavam um dilúvio. Passamos cerca de vinte minutos observando a enxurrada levando os sacos de lixo pelas sarjetas. Era um cenário catastrófico, mas sentíamo-nos seguros. O carro era novo e era um excelente teste para sentir a vedação total dele.

Voltei à minha reflexão e meditação sobre o porquê estar ali contigo. Tive alguns mementos, mas concentrei-me na conversa. Afinal, aproximar é impossível para quem já conheceu todo o terreno. Tenho agora que reconquistar. E, para isto, vou usar a estratégia da raposa que dialogou com o menino em O Pequeno Príncipe. Cativar é "amar, é também carregar um pouquinho da dor que alguém tem pra levar". E você é responsável porque me cativou!


A fé será usada porque entendi que ninguém se aproxima ou se sujeita a cativar se não for uma ação divina! Então a obra é completa porque Deus está no controle. Ele é quem prescreve o roteiro de nossas vidas. Nós apenas cumprimos as funções dadas. Somos atores da peça divina. E a nossa liberdade consiste no privilégio de desfrutar deste serviço de encenação e atuação.

Neste sentido, sou o rejeitado que assumiu a função de reconquista. Sofrerei porque está escrito que devo agir assim, mas não serei aniquilado: faz parte do projeto de restauração. Não há sucesso sem provação, e, por isso, inicia-se a reconquista.

Então eu disse que iria entrar. Bati a porta do carro e despedi-me, falando em tom baixíssimo: "eu tenho a missão de te cativar".


Os pneus colocaram o carro em movimento. Saída rápida. A chuva havia enfraquecida. Então, registrei no livro da recepção: "hoje eu estreei a novela, e dei-lha o nome A reconquista".

domingo, 23 de julho de 2017

Pra Sempre


O girassol não é apenas a flor, recheada pelas pétalas e dezenas de sementes. Nem tampouco refere-se às ações de movimentos do astro-rei, alimentado o universo com seus raios e tornando-se as bioquímicas da energia produtora de outras biossínteses. Ele representa as dinâmicas da vontade de viver e os conflitos do medo de morrer. Afinal, o ser humano é vocacionado a experimentar a bênção de respirar e ser alma vivente, contudo sofre porque é consciente de sua brevidade neste mundo. 

Como ato divino, a experiência de conhecer, decidir e sentir adentra-se às fases através das quais cada ser vivo é destinado. Uma dessas fase é a do ser humano realmente vir à vida, com dores, choros, fome, constrições e descobertas. Cada desenvolvimento, passos da aprendizagem evolutiva da espécie, é uma relação de conhecimento, sabedoria e praxiologia. Conhecer significa matricular-se na universidade dos porquês em busca do entendimento acerca das funcionalidades. E o saber requer a especialização sobre as dicotomias que tornam cada assunto funcional, prático e contextual. O girassol é uma representação da fase do conhecimento, pois, através do desenvolvimento, faz o ser humano entender a função do viver como ser humano!

Segue-se à esta fase a de autocompreender-se e interpretar a missão de ser alguém neste mundo. É neste sentido que a tomada de decisão refere-se à complexidade das incertezas, dos conflitos, das negações e das biases. A volição é uma importante ferramenta para todos, ela é pacificadora, revolucionária e altamente violenta! Destina-se às escolhas que são feitas durante o desenvolvimento de ser alguém: as escolas, as amizades, as profissões, as religiões, as férias e, biologicamente falando, as paixões. Decidir sobre determinadas situações não é algo fácil, mas é preciso fazê-lo! Há sim lutas internas quando teme-se acerca das consequências, no entanto a decisão é um remédio preventivo. Não cura, mas alivia os sintomas. A decisão só é terapêutica quando ela é politicamente a favor da vida, expressão máxima da vontade de Deus. O girassol é um arquétipo das decisões a serem tomadas, em cada movimento enxerga diferentes perspectivas do cenário maior. Vive-se melhor, movimentando-se!

E, por último, há a fase intuitiva e instintiva de perceber a sensibilidade da vida, bem como da morte. Cada ser humano experimenta as sensações das “inas”: endorfinas, adrenalinas, serotoninas, entre outras. Todavia, é na experiência da psique, ou melhor, na percepção dos sentimentos e das emoções, que habita a estética da felicidade e da finitude da vida. É o momento do coração e da mente duelarem-se com o objetivo de tornar prevalente a missão de existência do ser. É, pois, assim que entende-se a eternidade do ser: “pra sempre”. Eis porque cada sentimento possibilita sensações diferentes. Na verdade, cada sensação deveria ser interpretada duplamente: uma para o momento, aquela que conduz à euforia, à felicidade, à alegria e à satisfação, enquanto a outra é para a ausência destas percepções e para a indução às antagônicas, ou seja, à antecipação da morte. O girassol prefigura os sentimentos da eternidade, conquanto a partir de um único girassol perpetua-se dezenas de outros mais, e assim por diante. Mas para viver eternamente, é preciso passar pela experiência da finitude! A fé é o veículo que garante esta passagem.


Enquanto ser humano ou alma vivente é preciso alimentar-se integralmente do conhecimento, das decisões tomadas e dos sentimentos percebidos. É necessário ter “bem clara e definida” a missão de existir eternamente. Pois é sem medo de errar que aproxima-se da coragem de acertar; bem como é com a vida que são vencidos os obstáculos da morte. É sim com o amor que derrota-se o mal, e é pela esperança que acredita-se na redenção! E foi pela cruz que a pedra foi removida! O girassol não é presságio da loucura van goghiana, mas do tempo e do espaço que a vida e morte humana acontecem. 

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Serviço carismático

A fé exerce uma influência, ou até mesmo dominação, sobre cada um de nós, por causa da adesão feita a Jesus Cristo. Deve-se considerar a fé como o carisma (dom) cuja força induz todos os fiéis à compreensão da promessa, ao exercício da obediência e ao cumprimento da missão. A fé, mais que qualquer outro dom, é o fio condutor de energia divina para todos os receptores da esperança na volta do Ressuscitado, da variedade de serviços prestados ao socorro integral da vida humana, e, graciosamente, da ação redentora de toda a criação.

É claro que este controle é uma ação do Espírito Santo sobre os que creem, afinal confiar é uma exigência divina somente para os habitados pelo Espírito dele. Neste sentido, o Pneuma capacita os fiéis através do ensino escriturístico, normativo e histórico acerca dos valores do reino de Deus. Ele também age sobre a memória (consciência), em análise de confronto, para que, em cada ação (agir, fazer, pensar) haja atitudes santificadas por Ele. O Espírito é quem separa as ações que cada agente irá utilizar para que, definitivamente, o desígnio divino seja cumprido. Não é uma ação randômica (aleatória), mas sistemática. Todo agir do Espírito sobre as pessoas se encontra dentro de um sistema carismático, cuja finalidade é conduzir o(a) fiel à mente de Cristo e glorificar o Pai. Qualquer menção, ainda que declare “em nome do Espírito”, fora do sistema carismático torna-se charlatanismo, pseudonomismo e, drasticamente, heresia.

Deixando de lado as terminologias, pois para os católicos o mais comum é 'carismático', devido ao movimento carismático, e para os evangélicos, o termo mais comum é avivamento, segue-se que a compreensão sobre a ação do Espírito Santo sobre a estrutura eclesiástica é discutível sim, mas não negada. Seja como for, existe sim um sistema que diz respeito aos ministérios da igreja cristã. O sistema carismático é a base de toda e qualquer ação missionária da fé cristã. Não existe outro. Há os que leem passagens bíblicas sobre os dons, tais como Romanos 12, 1 Coríntios 12-14 e Efésios 4, e, literalmente, advogam esta lista de carismas como os ministérios a serem desenvolvidos pela comunidade. E, de fato, é isto mesmo. Melhor ainda, se cada comunidade conseguisse tornar a igreja também carismática, além de seus membros. Isto mesmo! A igreja é um organismo que precisa também ter as suas estruturas de funcionamento e de organização alcançadas pela ação do Espírito. A igreja caminha na força do Espírito na medida em que ela é totalmente carismática.

Os carismas são presentes divinos, concedidos à humanidade por Deus. Eles se referem às capacitações divinamente doadas, às aquisições de habilidades específicas e às competências proféticas e pastorais, além dos inúmeros talentos agregados. Os dons são serviços oferecidos e executados para o resgate da criação de Deus. Eles são infinitos! Não existe exatidão em suas performances, afinal são soberanamente decididos por Deus. Os dons são respostas às necessidades emergenciais do mundo. Se entendidos desta maneira, cada comunidade é um presente para o bairro, para a cidade e para o mundo.

De certa forma, as áreas temáticas, descritas em ambientes universitários, deveriam também ser indicadoras da atuação missionária da igreja cristã. Estas oito áreas temáticas (comunicação, cultura, direitos humanos e justiça, educação, meio ambiente, saúde, tecnologia e produção, trabalho), certamente, inovariam a estrutura organizacional de ministérios de cada comunidade, de tal forma que cada uma delas iria repensar as necessidades do cotidiano. Há regiões que não precisam de evangelização (entendida como anúncio da salvação), mas de trabalho. Outras não precisam de profecia (entendida como visão e sonhos), mas de denúncias de agressão e violência à criança e à mulher. O que dizer a respeito de uma região que não precisa de intercessão (entenda-se reunião de oração), mas de socorro imediato por meio dos agentes da saúde, pois tal região está infestada pelo mosquito da dengue? Enfim, repensar os serviços a partir das áreas temáticas não é loucura, é uma alternativa pastoral para conduzir as ações ministeriais da igreja para a cidade.


Espera-se que, além dos serviços convencionais, tradicionalmente existentes nas comunidades, possam agora reformarem-se, a fim de que se elas tornem-se em ministérios mais efetivos e transformadores. A fé cristã é sim muito dinâmica e está sempre em constante movimento. Ela não deve ser um conteúdo de especulação, de dogmatismos insalubres, de pregações inférteis, de populismo sem oposição e de preferências teológicas. A fé cristã é um serviço gratuito às pessoas que necessitam da graça de Deus para compreender o amor, a salvação e a esperança. Todos os que congregam com este sentimento submetem-se obedientemente à carismatização do Espírito, e, consequentemente, contribuem para a renovação da fé. 

sábado, 31 de dezembro de 2016

Cicatriz da saudade do amor





A vida é como um enunciado de estado. Fala-se uma frase e, analiticamente, reconhece-se dimensões dos estados da alma. Ou ainda, em orações com períodos longos, percebe-se as nuances dos sentimentos expressos pela vivência e experiência humanas. Ninguém é isento de enunciados de estado, afinal todos são vítimas das emoções. Cada um de nós é foco dos sentimentos, cuja alma recebe dialeticamente as vicissitudes da própria caminhada e da busca pela existência consciente no mundo. Ignorar a identificação dos estados de alma é sucumbir às doenças sociais pós-modernas, sendo a depressão a maior delas. Sendo assim, a maior emoção sentida é a de viver.

Os enunciados de estados são dois. Um é de posse e o outro é o privação. A posse se caracteriza por aquilo que se adquire, ganha, recebe, conquista, obtém, etc. “Eu comprei um carro” é um tipo de enunciado característico da posse. Não importa o mecanismo de articulação ou lógica de argumentação, pois no final a construção das sentenças é para elucidar e persuadir a todos, visto que o sujeito é a vítima da posse. Já a privação opõe-se fortemente ao estado de posse. “Cheguei ao serviço hoje e anunciaram-me que havia sido demitido”. Havia um empregado e, depois do anúncio, passou-se haver um desempregado. Posse e privação são, portanto, o foco dos enunciados. Deve-se atentar para a construção de como eles se articulam, pois é desse efeito de transição entre os enunciados que são identificadas as emoções.

Até aqui, pode-se entender a dinâmica da vida como a transição entre os estados de alma, caracterizados pelos enunciados de estado de posse e de privação. E, uma vez identificados, analisa-se as emoções. Por exemplo, o que é a felicidade senão uma satisfação, um contentamento? Mas quando vista pela análise destes estados, então a felicidade passa a ser os itens que sustentam e revelam estas emoções. Por isso alguns “sentimentos” serão, muitas vezes, simbolicamente representados por objetos reais da vida humana, sejam eles eufóricos (positivos) ou disfóricos (negativos). Estudar e compreender as emoções são excelentes oportunidades para conhecer os limites de superação do ser humano. Neste sentido, as emoções são indicadores dos níveis de satisfação e de insatisfação.

O que é a saudade? Afinal, é uma palavra cuja descrição semântica só é existente em Língua Portuguesa. Saudade é uma cicatriz causada pela lembrança eterna de alguém que amamos e que, pela jornada da existência, a perdemos. Ela é um período sem fim, através do qual há estímulos acerca de nossa formação (“morphosis, desenvolvimento e comportamento social) e transformação (“metamorphosis”, maturação e identidade). A saudade sempre será um estado de privação, mas que será superada pela enorme quantidade de posses conquistadas. “Não se mata a saudade, vive-se dela”. Deve se pensar na saudade como um dom divino, cujo objetivo é viver na esperança de ver a Deus face a face. A saudade é o destino das utopias, nunca será alcançada, mas sempre existirá como o alvo a ser conquistado.

Quem já perdeu alguém, experimenta a saudade dia a dia. Vive-se liturgicamente o luto da lembrança. As reminiscências são atos celebrativos, cujos ritos reforçam a perda e amenizam a dor. A saudade é sim uma cicatriz porque sinaliza a vida em aperfeiçoamento, tanto pelos sentimentos e pelas emoções, como pela volição e pela razão. Saudade é a habilidade de lidar consigo mesmo, seja melancólico ou eufórico, pois é através dela que descobre-se a experiência da saudade que havia na vida de alguém. E ela sóé verdadeira porque é o resultado do campo da alteridade. É a descoberta da relação do “eu” com “você”. Enfim, a saudade é de você, nunca de mim mesmo!

Quem já amou e não conseguiu mantê-lo, vive da ilusão da saudade. Sim, a saudade ilude à medida que não se entende a lição ensinada. Vive-se na busca de paliativos: sexo, dinheiro, drogas, jogos, bebidas, etc. Diz-se que os melhores placebos são os para a saudade, e eles vêm embrulhados em formato social de ‘pequenas simpatias’ ou mesmo ‘crendices populares’. Mas a melhor saudade é a do amor, porque ela revela a força de amar eternamente e a fraqueza de deixá-lo escapar. A saudade do amor é o motor de quem acredita na esperança, ou mesmo de quem crê no reencontro, ou mesmo de quem deposita toda a vida na expectativa de redenção futura. Não se vive para o futuro, espera-se nele. Não se vive para o passado, aprende-se dele. Vive-se para o presente acreditando. Crer é o aprendizado da saudade do amor, porque faz-nos viver eternamente.

A força da saudade não nos controla, ela inclina-nos à organização da vida. Quem bem alimenta as suas saudades, frutifica-se com lembranças, esperanças, futuridade e alteridade. Trata-se de alguém que mais se preocupa em aproximar-se da força de si do que deixar que as convenções sociais forcem-no a fazer. A saudade é um ímã que atrai as pessoas para o entendimento e as repele da angústia. Não há vida sem a presença da saudade!

Há uma única cicatriz da saudade, mas ela é alimentada por muitas experiências da vida, sendo o amor a maior delas. 

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Caçando a felicidade





A felicidade é uma frequente busca. É como a caça ao tesouro perdido. Ou ainda, é a utopia das emoções paradisíacas. Ela não é algo inconquistável, mas várias batalhas de uma única guerra. Cada um de nós é como soldado alforjado em busca de ações que nos dê a sensação de prazer, conquista, poder, satisfação e realização. A busca, então, é a caça que fazemos diariamente para afirmar que estamos felizes. 


Ser feliz não é só uma sensação do estado de espírito. É a consciência de que estamos batalhando em trincheiras, nas quais, muitas vezes, é o tipo de luta que precisamos para ganhar a felicidade. Por exemplo, o emprego que almejamos, mas que será conquistado por meio de concursos. Por mais que hajam vagas, a luta é sempre pelo extermínio de outros. De fato, a minha felicidade não é porque passei, mas porque consegui eliminar muitos... Emprego é a ilusão da caça que se faz pelo ideal de felicidade.


Outra batalha a ser vencida é a do dinheiro. Diz-se que o dinheiro compra a felicidade e, sendo assim, cada um de nós tem um preço. Há uma música que diz sobre as pessoas procurando a “etiqueta de preço” (Price Tag) porque julgam que as vendas vêm em primeiro lugar. O que dizer disso? Só posso afirmar que, devido à essa metodologia do pensar, as exigências éticas foram totalmente ignoradas e a verdade vem sendo negligenciada. O futuro será aquela sociedade na qual cada cidadão é identificado pela etiqueta de preço. Neste sentido, a felicidade é uma etiqueta cujo preço é marcado pela ausência da ética.


E o que dizer do amor? Esse sim é o objetivo da felicidade. Falo do amor erótico, aquele que sentimos a paixão como diretriz da vida! Esse tipo de amor se contrapõe ao faz emergir as sensações de realização, conquista e, acima de tudo, poder. Neste sentido, o “poder” é sinônimo de “dever”. Todo mundo deve ser feliz, cada um com dimensões diferenciadas, mas todos têm tal direito. A felicidade é significativamente as dinâmicas do amor. A satisfação ou realização é a caça que precisamos prender e saciar-se dela. Os depressivos sofrem desesperadamente porque não conseguem definir a caça do amor.


Há outras batalhas precursoras da felicidade, todavia quero falar sobre a luta dos relacionamentos. Essa é indiscutivelmente a mais difícil. Pessoas se relacionam entre si por causa de minuciosos jogos de interesse. A batalha consiste justamente na identificação objetiva de cada um desses jogos. A pessoa que está contigo pode te trair e fazê-lo “perdedor” durante e no final do jogo. Os relacionamentos são descrições de contratos sociais, através dos quais são percebidas as lacunas de suspeições, atrevimentos e impensáveis dissoluções da parceria. Neste sentido, a união de pessoas não é a melhor forma de felicidade, mas a intensidade e as provas que um pode demonstrar para o outro. Os infiéis exemplificam o porquê da felicidade nos relacionamentos ser uma catástrofe. Talvez, a busca pelos relacionamentos esteja no encontro de si mesmo e na disseminação da alegria interior ser projetada para o alcance de outros. Ninguém amará o próximo se a si mesmo não julgar-se a potência da relação feliz.


Quero terminar, considerando que a garantia da vida é como sendo a caça frequente que fazemos para ser feliz. Uns encontram-na posição que exercem pelo trabalho. Afinal, a qualificação profissional é a prova do emprego conquistado. Quem é “formado”, mas não exerce a profissão, acaba frustrando-se. Quem já conquistou, vive na busca incansável de “defender” o território. E há outros que têm na avareza a sutil e inócua garantia da felicidade. São os consumidores viciados no ganho e uso do dinheiro. Também são os emissários do diabo nas estratégias da compra e venda da alma humana. E há também os iludidos pela busca afrodisíaca da eroticidade, da paixão, da carne, da libido – esses representam o devaneio dos desejos desenfreados. Hoje, a sociedade é o caos da libido sem freio. Por fim, há os que destinam-se para o outro. É a alteridade impondo as regras do jogo: ser feliz consigo mesmo para que o outro se contagie e seja alcançado por ti.
 
Agora vou sair. Vou à caça. Quero ser feliz e devo ser feliz!

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Transparência






Amanhã, deixarei que me abram para que vejam aquilo que já sei. Afinal, os alquimistas conseguirão entender o que significa religiosamente viver a esperança dos sufrágios. Neste sentido, “abrir-se” é como uma desvelação humana, é como sair da existência para entrar na essência. O objetivo último de todos nós é tornar-se essência com o Numinoso. Não precisamos de diagnóstico, mas de diretrizes que nos colocam no caminho da eternidade. Ao deitar-me na maca, como cobaia da dessecação, serei corpo inerte, sem ação, sem vontades, mas estarei vivo porque artificialmente serei sustentado por máquinas e eletrodos. Estes últimos serão sensores, indicando minha existência... Porquanto, na anestesia do corpo, sentirei o silêncio ausentando-se da vida e presenciarei a chegada do aguilhão.

Por isto quem antecipa a intimidade com o Grandioso é, sem dúvida, os que já não conseguirão mais gozar desta felicidade carnal, nem desta nuance terrena de euforias sexuais e, nem mesmo dessa mistura de fluídos seminais e, muito menos ainda, dos sentimentos deleitosos. Eles são os que entenderam a missão sem fim, aquela missão que nunca atinge o alvo, nem cumpre profecias, nem realiza sonhos. Mas uma missão que inaugura novos alvos, novos desejos, novos sonhos, enfim, novas dimensões. A futuridade sempre se inicia com o fim dos guerreiros bravos, destemidos e fiéis. O único combate conquistado é o da fé: afinal, sem ela nem o amor próprio é conquistado, apenas se torna ludibriador das emoções e dos sentimentos.
 
E, como já disse, preciso ser aberto para ser revelado. Não é fácil ser transparente em mundo de opacidade. Não é vantagem querer ser feliz se o ambiente é de sofrimento. Nem é bom para a alma amar alguém que sempre irá te rejeitar. A transparência é a ilusão dos que buscam a verdade através dos comportamentos. “Quantos são os portais de transparência se é a corrupção quem faz iludir a própria verdade”? Para mim, a transparência é a satisfação plena que tenho, quando sei que há alguém em quem eu possa depositar todas as minhas inquietações: esse alguém sempre será o foco da minha verdade, da minha alegria e do meu amor. Transparência é a essência da felicidade, da verdade e do amor.


Todavia, há alguns que foram iludidos pela falsa transparência. Não se contentam com o meu testemunho. Eles precisam me abrir para encontrar as vísceras, as veias e os músculos. As vísceras, porque querem mexer nelas e fazer-me sentir o opróbio dos mortais. As veias, porque sabem que sou energizado pelos fluxos que dinamizam todo o meu organismo. E, dos músculos, porque querem me machucar, costurar, marcar, perfurar e desenhar. Tenho sido os “pings” e “pongs” das buscas pela transparência. Meu corpo é o fascínio de que há algo sobrenatural, enquanto minha alma é a secreta volição de minha essência. E o meu espírito, que diz-me acerca da eternidade, já vem dando-me a compreensão de que os axiomas dos que me rodeiam são “temporais”. Afinal, a minha competência foi compreendida como inimiga das vantagens e oportunidades. Eles não podem agarrá-las, e também não permitem que eu as tenha.  


Neste sentido, quando me abrirem, vão encontrar um espelho. Não o de Machado. Meu mesmo. Um que não refletirá a imagem, nem a essência, mas a autoimagem. Afinal, a transparência é o reflexo de si mesmo, conquanto nele mensura-se os valores que hão perpetuar-se eternamente. 

sexta-feira, 6 de março de 2015

Guerra do Medo






Ontem você me procurou para dizer que tem medo de viver a vida. Sim, viver a vida. Geralmente, a humanidade tem medo da morte, mas não da vida. Afinal, a vida é a satisfação de nossa consciência de que existimos. E é “em vida” que aprendemos a crer na essência de ser eterno.

Viver a vida amedronta sim. Não é porque ela seja horrível ou, em contraponto, fascinante. É porque viver é uma missão, assim como morrer também é uma missão. Se não formos conscientes deste princípio, então perdemos as ricas oportunidades de aprender a controlar, a contornar, a superar e, graciosamente, a vencer o medo. Viver, então, é um aprendizado. E, muitas vezes, o conteúdo dessa aprendizagem é exatamente o medo.

                                                                        
O medo causa-nos a vivência da antecipação do sofrimento. O medo conduz-nos à ansiedade – que é um princípio da morte. E a nossa “humanidade” é cheia de motivos ansiosos. Até mesmo um relacionamento mal construído poderá ser interpretado como sofrimento. Imaginemos, pois, um casamento às vésperas de ser consumado, mas que poderá ser interrompido por causa da ansiedade. A ansiedade é um preço caro, pago por situações que nem aconteceram. Mas ela tem que plantar a semente em nossa consciência a fim de conduzir-nos à angústia, ao sofrimento, ao desespero, enfim ao medo de encarar a missão de viver.

Imaginemos uma doença... e que não há cura para ela. Resta-nos somente a fé. A fé é mais que resiliência, é o dom de acreditar com esperança, é a experiência de que a cura não é a resposta certa, é a certeza de que o clímax da missão terá seu desfecho no “cumprimento da vontade de Deus”. Crer é, assim, a responsabilidade de cumprir a missão. Porque, de fato, somos construtores da criação e, no plano salvífico, resgata-se a alma. “Porque aprendi a estar contente em todas as situações”.

Vencer o medo é o nosso alvo, mas há várias batalhas. Pelo menos, três. A primeira batalha é que cada um de nós precisa autoconhecer-se, aprender os limites de suas forças, de seus equipamentos de segurança, de seus mecanismos de defesa, de suas habilidades e competências profissionais e, principalmente a abrir-se para o mundo do inimigo. Sem autoconhecimento é impossível entrar na guerra – por isso, há muitos que ficam na dependência de outros. A segunda é uma batalha mais árdua de ser conquistada por nós hoje. Trata-se da rede de relacionamentos que devemos criar. Falo da família, dos amigos, das parcerias institucionais, das aventuras, do lazer e do prazer. Todos estes, saudavelmente construídos. E, por último, a batalha de aceitar-se como humano. A mortalidade não é o nosso fim. Temos que definitivamente aprender a deixar o legado da “bios” para iniciar o legado do “aiwnion”.



O sofrimento é como trincheiras da batalha que enfrentamos dia a dia. Mas a guerra a ser vencida é a do medo.