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domingo, 21 de junho de 2015

Partida e retorno





Vim só para te avisar: "em breve, partirei"
Sendo assim, vou viajar. Lá, me tornarei
Resíduo para adubar. E de semente ser Rei
Em cova, hei de descansar. Lembre-se: "ressuscitarei"

A semente não vai germinar. Apenas lembranças serei
Duas gotas d'água a tomar. Das veias da terra, beberei 
E depois da dor de cear. A seiva final derramarei
Para todos, a vida a celebrar. Liturgia eterna cantarei

No túmulo, calafrios hão me acompanhar. Congelarei
Porque no silêncio, o som está a aumentar. Adoecerei
E no madeiro, corpo podre a deteriorar. Desaparecerei 
Na redenção final, ossos limpos a ficar. Remodelarei

Após a decomposição, o dia vem a acalentar. Cozinharei
E as muitas partes do modelo hão de formar. Renovarei 
As vozes vivas haverão de se comunicar. Proclamarei
No meu mundo, a alegria está a me despertar. Liderarei

Ao novo povo, a morte a deletar. A eternidade a todos darei
E energia divina e pura a todos a curar. O Espírito de vida concederei
Rios de amor a despejar. Porque dos leitos a todos levantarei 
Sementes lançarei à terra a germinar. E frutos produzirei

Na nova sociedade, hei de reinar. Rememore-se: "andarei"
Meus súditos serão discípulos da justiça a administrar: todos conduzirei
Sem excessão, todos virão a mim visitar. Aqui os perdoarei
Agora, posso anunciar: "meu reino estabelecerei"

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Euforia


Tarde difícil de aguentar. Calor infernal
Desci às águas rumo à bacia artificial
Outros já estavam lá, em festival
Então fiquei só, em estilo perimetral

De repente, trovoadas anunciaram
O perigo iminente de gestos que revelaram
Cinco, não. Seis, não. Sete ao todo se entregaram
Às brincadeiras pueris, todos saltaram

Você chegou a mim e fitou-me com singeleza
Disse-me com voz suave em tênue delicadeza
Veio o anúncio do término - olhos em tristeza
Com pressa, subimos as escadas com firrmeza

Lá, houve a cumplicidade dos corpos
Lá, existiu a fidelidade dos mortos
Lá, teve a minuciosidade dos copos
Lá, esteve a complexidade das fotos

Cá, ficou a sujeira dos transeuntes
Cá, permaneceu a magia dos duendes
Cá, sustentou-se o cerume dos maldizentes
Cá, solidificou-se os fluídos dos clientes

Noite aumentou-se com novo grupo
Chuva, trovões e pessoas sem guarda chuva
Ruas públicas sendo vistas como dedos em luva
Denunciavam garrafas de águas em luto

Cheguei e adormeci
Acordei e entendi
Suspirei e venci
Troquei-me e parti

Viver é alegrar-se nos sonhos!

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Olhar fotográfico


É duro ficar com dúvida
Em ti não há nenhum sinal
Apenas fico pensando no final
Por uma ação súbita

Dizem que caolho é rei
Em terra de cego. Isso eu sei
Mas nem mesmo ganhei
Um clique seu quando te olhei

Estou aqui todos os dias
Esperando pelas tuas manias
E te ofereço as mordomias
E ser parte de tuas correrias

Estúdio são vários
Revelações são sérias
Desvendamentos de aquários
Descobertas de misérias

Tire-me a imagem, mas não o suspiro
Tire-me a estética, mas não o que respiro
Tire-me a virtude, mas não o que sinto
Tire-me a verdade e anule o que minto

Um dia te conhecerei em foto
Porque pessoalmente será perigoso
Percorrei todo o seu ser melindroso
E te olhando em quadro, direi: "tu és o meu foco"

Publico aqui porque não somos amigos
Aqui é como lugar seguro, verdadeiros abrigos
Vai, aceita-me. E, então, faremos juízos
Porque é capital amarmo-nos sem prejuízos

Ninguém irá te descobrir
Senão eu que tenho que evadir
Tua felicidade virá quando eu abrir
O céu e o coração - juntos a dividir

Não me olhe, nem me fotografe. Ame-me.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Fresta




Abro a janela e vejo que você está me observando
Todos os dias, tenho que me valorizar para ti me desnudando,
Pois a visão de minha pureza é prova que está me conquistando
E assim vão-se os dias e finais de semana me contemplando.

Pena que a ilusão é o sonho que não se realiza
Faz-nos fugir sempre da utopia, cuja dor nem ameniza
De quem deseja encontrar-se com a alma precisa
E consumar a emoção que faz a carne adoecida

É fácil resolver essa situação: vamos quebrar o protocolo
Afinal, amar é como criança querendo colo
Ou seja, sair de casa, pular as regras, pessoas a tiracolo
E fazer tudo acontecer: subir ao céu, saindo do solo

Mas não é assim que a vida funciona
Pois em todo grupo há sempre convenções a seguir
Somos humanos e precisamos aos desejos suprimir
E viver a vida como: o suspiro que aciona

Sabe o que é uma fresta?
É uma oração feita no abismo
É o apocalipse de cataclismo
É a fenda da nossa festa!

Então te espero na surdina
Nos interregnos da nossa buzina
Eu fecho, você abre. É a sina
Do amor e do amar que se destina

Não quero te tocar e nem quero ser tocado
Quero, apenas, sentir a essência do esperado
Sentimentos que hão de ser eternos: aqueles pensados
E viveremos, sim, distantes, mas sempre um ao outro atados

O amor é um fresta que se abre para a janela das descobertas!

domingo, 8 de dezembro de 2013

Deixar a existência e virar essência


Um dia atendi o telefone e tive tremenda surpresa
Um "oi" amigo cativou-me, fazendo voar em manto turquesa
Convidou-me a ser amigo a distância como relação de pobreza
Fui sendo seduzido pelas conversas diárias, "eu seria a presa"

Então fui festejar com os amigos: petiscos, gente e bebida
Veio a mensagem, pedindo-me presença naquela subida
Saí por uns momentos e fui falar contigo, dando-lhe guarida
Na conversa, combinamos sair noutro dia, data comprometida

Foi no centro de compras, o melhor da cidade
Ainda tivemos contratempos, perdidos na urbanidade
Lojas, corredores e multidão: complexos da localidade
Finalmente, encontramo-nos na Livraria da Felicidade

Capucino é meu "drink" predileto: o seu foi só um suco
Em cada gole, o desejo de conhecer-te mais a fundo
Por isso, tempo é para diálogo para dar-se a conhecer ao mundo
E contratempo são os rudimentos que nos tornam em muco

Então descemos e fomos ao reduto das contemporaneidades
Lá houve o que mais temíamos: a relação de cumplicidade
Entrega foi de livre aderência e total assertividade
Resolvemos revelar as tênues e diversas complexidades

Três dias depois, novo telefonema: o vermelho de Moscou soou
Não é comunismo, nem tampouco Marvel Comics. Trim-trim ecoou
Ao atender, fui encostado à parede: "Fica comigo"! Mente voou
Então, disse sim para aprender a amar. Nova etapa de vida começou

A cada dia, relação intensa das conversas intermitentes
Devaneios e conquistas das emoções que só têm nas mentes
Quem já foi feliz na alma, deseja agora os clímax frequentes
Finais de semanas sempre a promessa de celebrações constantes

Durou por seis, menos dois, sobram quatro de estações
Não sou de primavera, nem de verão, mas de emoções
E o inverno e o outono se transformaram em dor nos corações
Quem desiste da graça de amar, vive no inferno das solidões

Foi assim, tem sido assim e só vai mudar quando um de nós inexistir!

Prá que te amar?



Para que entregar-se ao amor
E viver na expectativa da felicidade
Se ele vai me deixar, só de maldade
Provocando-me intensa sofrida dor?

Foi assim que aconteceu: o mundo me conheceu
Virei bobo e fiquei à mercê do Senhor Não Entendeu
Na dimensão das paixões, os tontos são pigmeus
E na dimensão das contradições, os sábios são ateus

Família veio ser um problema para nós
E os teus amigos, que não te aceitam, são nós
É como calça larga que não pára, sem cós
Não sabem da relação. Eles a enfeiam, sem voz

Ser alguém é assumir a relação que encanta
Mesmo que ela seja primitiva, em busca do Elo Perdido
Pois aquilo que se rejeita, vive-se no idílio aturdido
Ter alguém é consumir o ato, quando se levanta

Vou eternizar-me, sublimando o desejo de ser rejeitado
Vou angustiar-me, deflorando a ânsia de ter sido enterrado
Vou alegrar-me, celebrando o ímpeto de haver ressuscitado
Vou ascender-me, iluminando as ideias de estar glorificado

Naquele dia você se chegará a mim, mas não te amarei
Estarei com muitos que me aceitaram, e com eles festejarei
Você, infelizmente, não terá lugar, será a vítima que gozei
Porque a morte não apaga a mente, mas o corpo que cativei

domingo, 24 de novembro de 2013

Dor sem alívio

 
Ontem sai para aliviar a dor
Que fluía em todos os ossos em pavor
Então telefonei, pensando em ti somente
Qual foi a surpresa ao ouvir um "alô" contente

Fui à consulta na clínica da alma
Lá, aumentou-se a dose da palma
Porque a resiliência fustrou-se pela ferida
Ao relatar a morte prévia ocorrida

Então resolvi tomar outra substância
Aquela que cura instantaneamente
Fluidos de humanidade em ânsia
Sendo alívio imediato da mente

A noite é quente, mas tua presença é gélida
Quem tem esperança aquece a causa emérita
Por isso desmaiei, desejando morrer - cena séria
Desliguei-me na mente, no pulmão - alma etéria

Acordei e, sangrando, desesperei-me
Atado a um escalpe, drenavam-me
Amarrado à maca, operavam-me
Anestesiado e, orando, aspirei-me

Não pertenço mais a ninguém
E não há quem poderá me desejar
E se houvesse, em ressalvo, alguém
Ficou aqui à mercê de abutres a putrefar

Pinc, pinc, pinc, ponc - última gota

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Companhia da estrela



Em todas as noites, ela aparece no céu
Somente eu a vejo porque brilha só para mim
Só para mim, só para mim
Brilhar é ser único para alguém

No céu, há, sim, outras estrelas
Mas meu ser se apaixonou apenas por uma
Teu brilho e tua beleza me encantou sobremaneira
Apaixonar-se é ser encantado por uma única estrela 

Já tentei ver o brilho de outras estrelas
Decepcionei-me. Não pude revelar meus segredos 
Porque já havia contado para ela
Segredar é quando encontramos uma única estrela

O homem pode encontrar muitas estrelas em seu caminho
Mas só uma é que alcançará o seu coração 
Porque no brilho do amor, nasce a esperança de viver
Caminhar é seguir as batidas do coração estrelado 

Em noites nubladas, vou dormir cedo
Para sonhar contigo e descansar
É o teu brilho que me aquece com a luz flamejante
Sonhar é ser aquecido todas as noites pela estrela brilhante

Despertar nas manhãs é como celebrar
A felicidade aos amigos e à comunidade
Pena que só eu te vejo e só eu te desejo
Festejar é acreditar no brilho oculto de uma estrela 

Ninguém te vê porque não acredita no brilho do amor
Eu, sim, fui fisgado pela felicidade plena
O céu é o teu lar, então irei te buscar
Amar é trazer o céu estrelado à terra desalmada

Você me fez brilhar por seis, e por dois perdi o rumo do teu brilho
Hoje, não há estrela no céu, pois o teu brilho é o do sol refletido
Estou sendo iluminado pela esperança do retorno
Viver é a semente da utopia do retorno brilho!

sábado, 24 de agosto de 2013

Rejeitado


Há uma energia que flui dentro de mim
Não é sangue, nem oxigênio. É o fim
Nem é o Espírito, nem a vontade de viver
É apenas a essência de te pertencer

Noites de insônia são fluxos de inquietação
De que o corpo está morrendo de inanição
Pois logo chegará o inevitável adeus da separação
E na tua mente estarei vivendo eternamente, ó paixão 

Detesto os corredores 
Em cada lado, ouço os rumores
Olho para as lentes dos observadores
E deixo que eles descubram meus temores

Para a direita, há o perigo da drogadicção
Para a esquerda, sempre o da prostituição
Para cima, encontro a senhora perdição 
E para baixo, o poço da destruição 

É preferível continuar esperando
Que a tua incompreensão vá se deteriorando
Pelas mazelas que a solidão irá te causando
Até pedir socorro a quem sempre esteve te amando

Não desistirei de te amar, mas cansarei de viver
Sem a tua recíproca, é melhor partir para não sofrer
Pois em cada dia, renovo a esperança ao te ver
No entanto, fico sempre distante para não adoecer

No mundo da paixão, só o toque é o da redenção
É como um lixão a céu aberto esperando a decomposição
O aterro não é a solução, mas o obedecer da classificação
Espero por tua mão para escolher-me dentre essa seleção

Fui descartado por ti, mas tenho valor
Sou um tesouro já polido pela dor
E criatura consciente do Salvador
Na rejeição de muitos, saí-me vencedor


Já disse que o Norte é meu destino
E não mais esperarei por ti, ó inquietação
Pois na vida humana sempre há algo festivo
E morar no Sul tem sido minha frustração 

Ano que vem será muito diferente
Irei para o único lugar quando um dia te encontrarei
Dois metros abaixo do solo, lá te esperarei
Então, tua rejeição não estará presente

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Olhos preguiçosos


Sofro de insônia
por causa das batidas do meu coração,
cuja cadência é o rítmo da minha alma 
e o sono é o despertar constante.


Sofro de insônia
porque há sempre motivos para acordar,
achando que você está ao meu lado
aquecendo-me com teu corpo.


Sofro de insônia
todos os dias da minha vida,
em cada cochilo no trânsito
denunciando pessoas que não conheço.


Sofro de insônia
devido ao medo da solidão,
que entristece-me o espírito
e a perda da oportunidade de sonhar.


Sofro de insônia
porque a tristeza consome meu ser,
de não poder dormir o sono da morte
e reconhecer a realidade da vida.


Sofro de insônia
lendo os dramas do cotidano,
cuja escrita é cravada no coração
batendo na cunha para apagar a obra.

Sofro de insônia
pela ausência dos amigos e amigas, 
que amei sem trocar fluidos 
de conversas quentes e espirituosas. 

Sofro de insônia 
das consultas médicas, 
vulgarindo-me com uma simples virose
e diminuindo-me com diagnóstico de depressão

Sofro de insônia 
por causa dos fusos horários,
em acessos continentais das diversidades humanas
quando vivi as consequências da biculturalidade

Sofro de insônia
quando tenho que trocar os lençóis em noite fria, 
sujos pelo tempo e não pelos corpos
e faz-me chorar por destruir tua presença.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Aprisionado pela ignorância

 

Vivo aprisionado em masmorras de pedras e grades 
Não se parece em nada com as clausuras dos frades
Não recebo visita de ninguém. Só de camundongos
As paredes são muito espessas e os silêncios longos

Antes de ser preso e condenado, eu era livre. Ah, meu passado!
Mas quando descobri como era cego e enganado. Não fui amado!
Tentei ensinar-te a responsabilidade da relação. Fui trapaceado!
Então, tive que tomar essa atitude: revelar tudo para ser libertado!

No entanto, mais uma vez você se serviu de minha fraqueza
Intimidou-me com palavras, como sempre, usou da ardil sutileza
Disse que ia me ajudar do teu jeito. Mas qual, ó lerdeza!
Vive da maquiagem para se esconder com cruel dureza 

Sei que há um lugar no teu coração para mim. Afinal, você me conheceu
De minha parte, esse lugar sempre existiu. Pena que você o esqueceu
Tornei-me a representação dos teus anseios. Por isso você me apeteceu
Lembra quando tudo aconteceu? Foi lá, no quarto que você ao amor cedeu

Se você fosse inteligente, iria aceitar minha proposta 
Em pouco tempo, saberíamos a resposta
Para continuarmos nos amando, às encostas 
Mas você é meio cabeça-dura, vira-me sempre as costas

sexta-feira, 19 de julho de 2013

De esperta mente



Todas as tardes, antes do por-do-sol, vou te ver
Desço ao Centro do Registro do Saber 
E observo-te, à distância, sem aparecer
Contemplando tua estética, tua tez e teu ser 

Decido revelar-me a ti. Apenas aceno
Cumprimento-te com os olhos. Meu bom senso
Folheio, rabisco e escrevo. Só não penso
Tua presença equivoca-me. Saio tenso 

Por que você não fala comigo?
Será este o meu castigo?
Ou será aqui, teu trabalho, um abrigo?
Fica, então, assim: um dia estarei contigo!

Mandíbulas metálicas que cortam ao meio
Lombo saltado prejudica-te o esquerdo seio
Olho vidrado com pálpebra caída - não é feio
Pernas finas e redondas formam teu custeio

Nesta semana, ajustei-me para crescer espiritualmente
Ia ver-te para meditar e contemplar religiosamente
Meu imaginário sobre ti é guardado secretamente
E nas minhas representações, sacio-me compulsivamente

Não tenho receio dos delírios
Observar-te é efeito de colírios
Você é o jardim cheio de lírios
Prende minha alma com os teus cílios

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Procura insana


Cheguei cedo, não te achei.
Telefonei, não me atendeu.
Mandei mensagem, não me respondeu.
Fui ao cemitério, te encontrei

Fui ao túmulo, decepcionei-me
Flores murchas, emudeceu-me
Poeira bem suja, asfixiou-me
Deitei ao lado, expirei-me

Em ascensão, fui às nuvens
Em opacidade, houve fuligens
Em trânsito, vi os pajens
Em desespero, peguei-me aos tótens

Ao tribunal, apresentei-me
À acusação, defendi-me
À sentença, prostrei-me
À liberdade, regozijei-me

Voltei para novo mundo
Alegria e gozo profundo
Renovado em segundos
Ajudando os moribundos

Sono da morte superado
Corpo, sim, ressuscitado
Trabalho, agora, arranjado
Salário, doravante, recuperado

O amor nunca existiu
Quando você partiu
Tudo, então, sumiu
Ninguém me viu

Por isso irei para longe
A mente será de monge

A vida como a do lounge
E o corpo repousará no ground

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Pânico


Se eu não receber um telefonema até meio dia, vou explodir! Boom! Boom! Boom!
Então, terei que botar a boca no trombone. Soon! Soon! Soon!
Desligado ou fora de área, enganando com Tum! Tum! Tum!
A linha da vida é curta, mas o fio da conversa é comprido. Sim! Sim! Sim!

Carro nunca foi segurança ou comforto. É apenas um ópio
Vai onde quer e transporta quem quiser. É a falsa saída do opróbio
Cada acelerada é o encurtamento da respiração. Torna-se o teu sócio
E naquela curva da grande Avenida, o fantasma aparece bem sóbrio

Já tive três veículos. Zerados! Todos foram momentos da paixão
O primeiro foi fruto do trabalho, cada centavo envolvido na missão
O segundo foi fruto do investimento, cada parcela a distante solidão
O terceiro foi fruto do estupidez, cada protesto denunciava a corrupção

Todos foram quitados sagradamente. Nenhum foi, enfim, "desvirtuado"
Vendi-os e apliquei em educação. Sou o fruto do favelado aperfeiçoado
Ando a pé. Sou do transporte público, mas haverei ainda compartilhado
Da sabedoria e do discernimento de que é possível ver sonho realizado

A tristeza é porque a superação da indignidade é processual   
Nada "cai do céu" como esperança senão a busca educacional
Foi o que me aconteceu: consegui a verbe titular magisterial
Só que o grau maior, você me fez perder. Sua contribuição foi letal


No princípio, o Norte foi minha direção. Significou-me a salvação
Lá, entendi a minha latinidade e venci os medos do povo saxão
Hoje, estou no Norte sem orientação. Sinto-me em meio à perdição
Aqui, compreendo a pecaminosidade, desafiando-me à missão

Estou aqui porque não posso estar lá. Sozinho jamais voltarei
Essa tem sido minha indecisão e angústia: perda que não superei
Por isso, até a saúde ignorei. Vou arriscar fugir para terra sem rei
Se serei doutor, não sei. Tempo me indicará o lugar em que vencerei

Vou te dizer com todas as letras: "Vá lá no quintal e veja teu pleito"
Teus súditos se envergonharão de ti, ó carruagem alva sem aceno
Já gravei tudo em diálogo celestial: nosso reencontro não será terreno
Eu não tenho glória senão a de fazer-te entender em tino leito

Resta-me isso: aceitar o pânico que vem soando há tempos
Sair, revolucionar-se, gritar minha independência através dos ventos
Sei que isso assusta a qualquer um: então ouça meus contrasensos
Morrerei para viver - anastasis e egeiro serão as nuances de consensos

Então só siga o exemplo do Mestre e diga assim: "eu ficarei contigo até o fim"