segunda-feira, 8 de abril de 2013

Relaxamento




Em semiótica das paixões, na narratividade, estuda-se a alteração dos enunciados de estado da alma. No dia-a-dia, sempre, saímos de um estado inicial para um estado final. Por exemplo: "Não tenho carro, mas sei dirigir". O enunciado começa com um estado de privação "não tenho carro" e finaliza com um estado de posse "sei dirigir". O que não se sabe é como a alteração de estado se deu. A conjunção "mas" abre espaço para várias possíveis elucubrações. Sempre que desconhecemos sobre o porquê das "coisas", ficamos tensos. 

Há várias possibilidades para explicar a causa da tensão. Pode ser a indecisão, a dúvida, a dificuldade de interpretação, desacordo entre as muitas opiniões, o estresse pessoal e profissional, etc. Destes a mais preocupante é a da dúvida. Como o pensamento se torna cruel em fazer-nos sofrer porque não se tem a certeza de algo. É a causa primária de muitos desesperos!

Ficar tenso é privar-se do relaxamento, é enrijecer-se a ponto de ficar quebradiço. A tensão é sempre presente, mas sua causa deve ser estudada e identificada nos tempos passado e futuro. O passado serve como espelho que reflete algo que fizemos, é como algo que sabemos que aconteceu e por isso nos constrange a não querer repetir. Olhar o passado é entender como a tensão se torna em medo. O futuro também nos deixa tensos. Ele deveria servir para projetar nossas ansiedades e desejos como realização, mas como é algo que não sabemos, não conhecemos e nem conseguimos identificar, costumeiramente ele gera em nós o temor.

A tensão provocada pelo passado coloca o ser humano em constante sentimento de insegurança, desconforto, descontrole e, em muitos casos, em pânico. Por isso quem já passou por depressão carrega consigo o fantasma de que ela poderá retornar. É o medo do retorno. É como, por exemplo, um exame médico que você faz e tem que retornar para pegar o resultado. O passado é o registro dos acontecimentos do medo – muitos estão apenas adormecidos, mas podem ressurgir como monstros fortes e destruidores.

A tensão provocada pelo futuro situa a pessoa em um ambiente de sentimentos de zelo e respeito, precaução e demasiada atenção. Mas tudo isso não é positivo porque a atitude é sempre de receio, ou seja, ausência total de coragem e ousadia. É o temor de evitar consequências não acontecidas! É estar sempre apreensivo diante de qualquer situação: relacionamento, entrevista, provas, exames, etc. O futuro é o "tiro no escuro" – temos a arma, mas não sabemos em quê acertar. O problema é que o futuro sempre tem a frustração e a decepção como respostas aos tiros errados da vida. Só que o futuro é o único tempo que protege as oportunidades. É, pois, nele que as esperanças se inauguram, as expectativas são renovadas. O futuro é o tempo das possibilidades acontecerem. 

Relaxar é a resposta à tensão. É afrouxar-se dos deveres, dos traumas, das culpas, dos temores e das depressões. O relaxamento físico é conseguido através da produção de endorfinas ou situações de bem-estar emocional, social, físico e mental. Para isso, basta começar com exercícios leves e depois ir se concentrando na boa saúde física. O relaxamento emocional precisa ser trabalhado com sessões psicoterápicas ou psiquiátricas, aliviando os sentimentos de angústia e, principalmente, os de neurastenia. Relaxar é sair da zona de desconforto e entrar nas atividades do bem-estar (spa).

Relaxamento significa as válvulas de escape que criamos para dar vazão ao estresse das tensões. Pode ser atividades físicas, sessões de terapia, de aconselhamento, expressões de espiritualidades extremistas, academicismo, promiscuidade, separação, etc. Ninguém consegue viver sem as válvulas! Elas liberam a pressão interna de nossos enrijecimentos. Viver sem válvulas é como não saber apagar o fio do pavio da bomba. Ela vai, sim, explodir. Eis porque o ser humano tenta reprimir comportamentos sociais, principalmente os religiosos, por considerá-los "imorais", contudo sem as válvulas de escape a humanidade seria psicótica e aniquilaria qualquer possibilidade de resgate ou de convivência.

A vida religiosa deveria sempre ser uma válvula saudável de escape das tensões humanas. Por isso, deve-se atentar para os tipos de discursos que bloqueiam a prática de espiritualidade saudável. Meditação, contemplação, oração, confissão e adoração são, verdadeiramente, práxis cúltica libertadoras das tensões humanas, bem como as sensações de comunhão, fraternidade, solidariedade, pertença, etc são terapêuticas para o desenvolvimento de indivíduos. 

Ao se ver em situação de tensão, procure pelas zonas de relaxamento saudáveis: 

(1) amizades são excelentes afrouxamentos de nossas inquietações, é mais que uma simples convenção social; 
(2) relação afetiva é e deve ser motivo de escape – não significa colocar tudo a perder, mas, sim, re-(de novo, refazer) lacio- (latio, intimidade) nar (respirar). É respirar novamente através da intimidade;
(3) campo profissional é a brecha necessária do convívio nos sistemas: ideológico, sociológico, político e pessoal – o trabalho é ação para sustento (relaxamento), mas quando é exploração para produção (tensão);
(4) o cuidado de si, cuidado da e, corresponde ao investimento feito em autoconhecimento.

Entendo que a comunidade cristã deveria ser esse lugar para que cada pessoa pudesse, sem qualquer sentimento de culpa, extravasar as "neuras". As eclésias seriam comunidades da expurgação, entra-se imundo e sai lavado! Também associo ao relaxamento a vida de lazer, a terapia do sono e o altruísmo. Acredito que o mundo só ficará melhor porque nós também estamos bem! Shalom é a saúde integral da criatura! Shalom é o relaxamento que precisamos.

Em minhas muitas andanças pelo mundo, já constatei o sofrimento da alma cuja causa era porque a pessoa nunca aprendeu a relaxar. Não sabia, por exemplo, experienciar a resiliência do sofrimento emocional, nunca entendera a administração da fé curadora ou da oração que perdoa. Antes, grupos de indivíduos foram "doutrinados" pelo sentimento da culpa e da condenação. O ensino do pecado foi mais enfático do que o do perdão e o discurso do "contra" acabou cerceando o Espírito de atuar nas mentes e tornar-se fértil. Pessoas ficaram alienadas ou fingiram-se "convertidas", simplesmente porque a tensão as tornaram impossíveis de extravasar e sentirem-se purificadas. Essa prática ainda permanece até hoje. 

Nesse sentido, pense sobre o tipo de discurso que realmente leva à libertação e não simplesmente de várias práticas para justificar o cabresto da dependência emocional. Ensino sempre será libertador, se não for, então, torna-se "castrador". Se voltarmos ao início deste meu texto, diria que Jesus Cristo proporcionou a mudança de nossa narratividade, ou seja, saímos de um estado de privação (perdição) para um estado de posse (libertação). E, dando continuidade a essa lógica "espiritual-racional" (Rm 12:2), diria que o Espírito dele continua fazendo essa alteração de enunciado e estados através da igreja. Vamos ser, então, agentes de mudança de enunciados.